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Terça-feira, Setembro 08, 2009

Índice

Série - Consolação

Série - DO CATIVEIRO BABILÔNICO DA IGREJA

SÉRIE - DAS BOAS OBRAS

SÉRIE - A ESCRAVIDÃO DA VONTADE



TEXTOS DIVERSOS

TEXTOS PARA OU SOBRE LUTERO

Sábado, Abril 11, 2009

O SOFRIMENTO DE CRISTO - MARTINHO LUTERO

Algumas pessoas refletem sobre o sofrimento de Cristo, revoltando-se contra os judeus, cantando a canção do pobre Judas e criticando este pelo que fez. Elas não se restringem a isso da mesma forma como estão acostumadas a acusar outras pessoas e a condenar e manchar a imagem de seus adversários.
Alguns descreveram diversos frutos e vantagens provenientes da contemplação do sofrimento de Cristo. A respeito disso circula por aí uma expressão enganosa de Santo Alberto (Alberto Magno, dominicano alemão, 1193/1200-1280): É melhor refletir uma vez superficialmente sobre o sofrimento de Cristo do que jejuar um ano inteiro, orar o Saltério diariamente, etc. Há pessoas que vão cegamente atrás disso. Perdem, assim, o verdadeiro fruto do sofrimento de Cristo, porque buscam seu próprio interesse. Por isso ficam carregando consigo figurinhas e livrinhos, cartas impressas e cruzes. Algumas pessoas chegam a acreditar que, com isso, estão se protegendo contra enchentes, assaltos, incêndios e todo tipo de perigos. Crêem assim que o sofrimento de Cristo, contra seu próprio caráter e natureza, deveria oferecer-lhes uma vida sem sofrimento.
Essas pessoas têm compaixão por Cristo. Choram por ele como se fosse um homem inocente. As mulheres que seguiram Cristo desde Jerusalém fizeram isso. Elas foram advertidas por ele para que chorassem por si próprias e por seus filhos (cf. Lucas 23.27s). São dessa categoria aquelas pessoas que, em meio à reflexão sobre a paixão, passam a fantasiar.
Acrescentam muita coisa a respeito da despedida de Cristo em Betânia e das dores da virgem Maria, o que também não lhes adianta muito. Por isso a pregação da paixão prolonga-se por tantas horas. Sabe Deus se é mais para dormir ou ficar acordado. Fazem parte desse bando também aqueles que aprenderam quão grande vantagem traria a sagrada missa. Em sua ingenuidade, julgam que é suficiente ouvir a missa. Somos levados a essa atitude por afirmações de vários mestres. Eles querem que a missa seja agradável a Deus "por causa daquilo que foi feito, não por causa daquele que o faz", por si própria, também sem nosso mérito e dignidade, como se isso bastasse.
Mas, na verdade, a missa não foi instituída por causa de sua própria dignidade. Ela foi instituída para tornar dignos a nós, e principalmente para refletir sobre o sofrimento de Cristo. Quando isso não acontece, a missa transforma-se numa obra material e infrutífera, por melhor que ela seja. De que adianta para você Deus ser Deus, se não for um Deus para você? De que adianta comer e beber ser algo saudável e benéfico, se não for saudável para você? Há o receio de que com muitas missas não se conseguirá nada melhor, caso não se busque nelas seu verdadeiro fruto.
O sofrimento de Cristo é refletido autenticamente por aquelas pessoas que o encaram de tal forma que se assustam sinceramente por causa dele. Então sua consciência logo desanima. O susto deve ser porque você vê a ira rigorosa e a dureza implacável de Deus para com o pecado e os pecadores.
Nem mesmo a seu único Filho amado ele quis dar por resgatados os pecadores. Só se o Filho fizesse uma penitência por eles tão séria quanto aquela da qual ele fala através de Isaías: "Eu o feri por causa do pecado do eu povo" (Isaías 53.5). O que será dos pecadores, se até o Filho amado é ferido
assim? Só pode tratar-se de uma coisa grave, que não se pode dizer nem suportar, para que uma pessoa tão grande e imensa se exponha à mesma e sofra e morra por isso. Se você pensar bem no fundo que quem sofre é o próprio Filho de Deus, a eterna sabedoria do Pai, você não deixará de ficar assustado. Quanto mais profunda for sua reflexão, tanto mais assustado você ficará.
É necessário que você grave profundamente em seu coração e que não duvide de forma alguma de que quem tortura Cristo é você mesmo. Seus pecados certamente são responsáveis pelo sofrimento de Cristo. Como um trovão, São Pedro atingiu e assustou os judeus ao dizer a todos eles: "Vocês o crucificaram", etc. (Atos 2.37). Por isso, quando você vir os pregos atravessarem as mãos de Cristo, pode ter certeza de que são obra sua. Quando vir a sua coroa de espinhos, pode acreditar que são os seus maus pensamentos; e assim por diante.
Quando um espinho fere Cristo, seria justo que mais de cem mil espinhos ferissem você. Mais ainda: eles deveriam espetálo do mesmo jeito, e até pior, por toda a eternidade. Quando um prego atravessa de forma torturante as mãos ou os pés de Cristo, você deveria sofrer eternamente com tais pregos e até piores. E o que também acontecerá àqueles que fazem com que o sofrimento de Cristo tenha sido em vão para eles. Pois esse espelho sério, que é Cristo, não mente nem brinca. Aquilo que ele anuncia será cumprido totalmente.
São Bernardo ficou tão assustado com isso, que disse: "Eu julgava estar seguro, nada sabia da sentença eterna sobre mim pronunciada no céu, até que vi que o Filho unigênito de Deus se compadece de mim, se apresenta e se submete à mesma sentença por mim. Ai de mim, se a coisa é tão séria, não é hora de brincar nem de estar seguro". Assim, Cristo ordenou às mulheres: "Não chorem por mim; chorem antes por vocês mesmas e por seus filhos" (Lucas 23.28). Acrescentou a razão: "Porque, se em lenho verde fazem isto, que será do lenho seco?" (Lucas 23.31). É como se ele quisesse dizer: "Vejam no meu martírio o que vocês mereceriam e o que lhes acontecerá".
Neste caso , é verdade que se bate num cachorrinho para assustar o cachorrão. Também o profeta disse: "Por causa dele lamentarão a si mesmos todos os povos da terra" (Apocalipse 1.7). Ele não diz que lamentarão a Cristo, mas a si próprios por causa dele. Da mesma forma também se assustaram aquelas pessoas em Atos 2.37, quando perguntaram aos apóstolos: "Que faremos, irmãos?" De igual modo canta a Igreja: "Eu o rememorarei com afinco e assim desmaiará a minha alma".
Aqui é preciso exercitar-se muito bem. Todo o proveito do sofrimento de Cristo depende de a pessoa chegar ao conhecimento de si mesma. Depende de assustar-se consigo mesma e ficar abatida. Se a pessoa não chegar a isso, o sofrimento de Cristo ainda não terá sido proveitoso para ela como deveria. Pois a obra própria e natural do sofrimento de Cristo consiste em levar o ser humano a ser idêntico a Cristo.
Cristo é atormentado física e psiquicamente de forma terrível em nossos pecados. Assim também nós devemos ser atormentados na consciência pelos nossos pecados. Não se trata aqui de proferir muitas palavras, mas de cultivar
pensamentos profundos e levar muito a sério os pecados.
Preste atenção na seguinte comparação: vamos imaginar que um bandido fosse julgado por ter estrangulado o filho de um príncipe ou rei e que você estivesse completamente seguro, cantasse e brincasse como se fosse totalmente inocente, até que torturassem você terrivelmente e provassem que você teria levado o bandido a praticar o crime. Então o mundo ficaria pequeno demais para você, especialmente se a consciência também ainda o abandonasse. Pois bem: quando você pensa no sofrimento de Cristo, deve ficar mais angustiado ainda. Os criminosos, os judeus, a quem Deus julgou e expulsou, foram os servidores do seu pecado. Na verdade, você é aquele que, através do pecado dos judeus, estrangulou e crucificou o Filho de Deus, conforme dissemos antes.
Tem razão para ter medo aquele que se sente tão duro e insensível, que não se assusta com o sofrimento de Cristo nem de ser levado ao conhecimento de si mesmo. Não há como mudar a exigência de que você se conforme com a imagem e o sofrimento de Cristo, nesta vida ou no inferno. Pelo menos quando você morrer e estiver no purgatório, vai assustar-se e ter medo, sentir tudo o que Cristo sofre na cruz. É cruel ficar esperando por isso no leito de morte. Por isso você deve pedir a Deus que suavize seu coração e permita que você reflita sobre o sofrimento de Cristo de forma proveitosa. Nem é possível que o sofrimento de Cristo seja refletido com profundidade por nós mesmos, a menos que Deus o derrame em nosso coração. Nem esta contemplação nem qualquer outra instrução são dadas a você para que tome logo a iniciativa de finalizar tal contemplação. Pelo contrário: você deve, primeiramente, buscar e pedir a graça de Deus, para que você a realize através da graça de Deus e não por você mesmo. Por isso aquelas pessoas mencionadas antes não lidam adequadamente com o sofrimento de Cristo. Não invocam Deus para isso. Mas, com sua própria capacidade, inventaram maneiras próprias de fazê-lo. Tratam o sofrimento de Cristo de forma totalmente humana e infrutífera.
Quem observa o sofrimento de Deus por um dia, uma hora ou mesmo apenas um quarto de hora faz melhor do que se jejuasse ou ouvisse uma centena de missas. Essa meditação transforma a pessoa em seu íntimo quase da mesma forma como o Batismo produz o renascimento. O sofrimento de Cristo realiza sua obra autêntica, natural e nobre. Estrangula o velho ser humano, espanta todo prazer, alegria e confiança que se possa ter em relação a criaturas. Da mesma maneira como Cristo foi abandonado por todos, até mesmo por Deus. Essa obra não está em nossas mãos. Por isso acontece que, às vezes, não a recebemos na mesma hora em que a pedimos.
Mesmo assim, não se deve desanimar ou desistir. Às vezes, ela vem quando nem a pedimos, conforme a sabedoria e a vontade de Deus. Ela quer ser livre e não presa. Então a pessoa fica preocupada e descontente consigo mesma em sua vida. É bem possível que ela nem saiba que o sofrimento de Cristo está fazendo isso com ela. Talvez ela não pense sobre o sofrimento.
Da mesma forma, outras pessoas concentram-se firmemente no sofrimento de Cristo. Mesmo assim, não chegam ao conhecimento de si próprias dessa forma. Naquelas pessoas, o sofrimento de Cristo é oculto e verdadeiro; nestas, é visível e enganador. Assim Deus troca, muitas vezes, os papéis. Não refletem sobre o sofrimento aqueles que refletem sobre ele, ouvem a missa aqueles que não a ouvem e não a ouvem aqueles que a ouvem.
Até aqui falamos sobre a semana da Paixão e a celebração apropriada da Sexta-feira Santa. Chegamos agora ao dia da Páscoa e à ressurreição de Cristo. Quando a pessoa se conscientizou de seu pecado e ficou muito assustada consigo mesma, é preciso cuidar para que os pecados não fiquem desse jeito na consciência. Certamente, eles causariam um desespero total. Assim como se manifestaram e foram reconhecidos por meio de Cristo, é preciso derramá-los novamente sobre ele e aliviar a consciência. Portanto, tome cuidado para não agir como as pessoas falsas. Estas ficam se mordendo e se destruindo com seus pecados no coração. Procuram escapar através de boas obras ou de satisfação, correndo para lá e para cá. Ou também por meio de indulgências, para poder livrar-se do pecado, o que é impossível. Infelizmente, essa falsa confiança na satisfação e nas romarias está amplamente espalhada.
Você tira o seu pecado de cima de você e atira-o para cima de Cristo. Acredita firmemente que as chagas e os sofrimentos de Cristo são seus pecados e que ele os carrega e paga por eles. Isaías 53.6 diz: "Deus fez cair sobre ele o pecado de todos nós". São Pedro fala: "Ele carregou em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados" (1 Pedro 2.24). E São Paulo diz: "Deus o fez um pecador por nós, para que fôssemos justificados através dele" (2 Coríntios 5.21). Em passagens como estas e em outras você deve confiar com toda a coragem. Quanto mais sua consciência atormentá-lo, tanto mais você deve confiar nelas. Porque se, ao invés de fazer isso, você quiser tranqüilizar sua consciência através de seu arrependimento e satisfação, nunca terá sossego. Por fim, acabará caindo em desespero assim mesmo. Se permitimos que nossos pecados atuem em nossa consciência, se permitimos que fiquem conosco e se os enxergamos em nosso coração, eles são fortes demais para nós e vivem eternamente. Mas se vemos que estão sobre Cristo e que ele os vence através de sua ressurreição, e se acreditamos nisso com coragem, eles estão mortos e foram destruídos. Pois eles não puderam permanecer sobre Cristo; foram engolidos por sua ressurreição. Agora você não enxerga mais quaisquer chagas e dores nele, isto é, sinais de pecado. São Paulo diz que Cristo "morreu por causa de nosso pecado e ressuscitou por causa de nossa justiça" (Romanos 4.25). Isto é: em seu sofrimento ele torna público o nosso pecado e assim o estrangula. Mas através da sua ressurreição ele nos torna justos e livres de todos os pecados, desde que acreditemos nisso.
Mas se você não consegue crer, deve pedir a Deus por isso, como dissemos antes. Pois também o crer está exclusivamente nas mãos de Deus. Ele também concederá o crer, ora abertamente, ora secretamente, assim como dissemos a respeito do sofrimento. Mas você pode animar-se para isso: em primeiro lugar, você não deve mais contemplar o sofrimento de Cristo (pois agora este já realizou sua obra e assustou você). Você deve ir em frente e observar o amável coração dele, considerando o enorme amor que ele tem para com você. Este amor obriga Cristo a carregar o fardo tão pesado de sua consciência e seu pecado. Assim seu coração ficará doce para com ele, e a confiança da fé será fortalecida. Continuando, passa então pelo coração de Cristo para chegar ao coração de Deus. Ele vê que Cristo não poderia ter revelado esse amor a você caso Deus, a quem Cristo obedece com seu amor para com você, não o tivesse querido em amor eterno. Assim você achará o coração paterno divino e bom. Como o próprio Cristo diz, dessa maneira você será atraído por Cristo para o Pai. Então você passará a entender as palavras dele: "Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito", etc.
(João 3.16). Reconhecer Deus de forma apropriada significa: entendê-lo não pelo seu poder ou sua sabedoria (que são assustadores), mas pela bondade e pelo amor. Então a fé e a confiança podem manter-se, e a pessoa renasce verdadeiramente em Deus.
Seu coração deve apoiar-se em Cristo e tornar-se inimigo dos pecados - por amor e não por medo do castigo. Alcançado isto, então o sofrimento de Cristo também deverá ser um exemplo para toda a sua vida. Agora vamos refletir sobre ele de outro modo ainda. Até aqui tratamos dele como um sacramento que age em nós e que experimentamos passivamente. Vamos agora tratá-lo como algo que também nós fazemos, a saber, da seguinte maneira: Quando você for incomodado por sofrimentos ou por uma doença, pense quão pouco isto é comparado à coroa de espinhos e aos pregos de Cristo. Quando você tiver que fazer ou deixar de fazer algo que o aborrece, pense como Cristo, amarrado e preso, é levado de lá para cá.
Se você é atormentado pelo orgulho, repare o quanto seu Senhor é debochado e desprezado ao lado dos malfeitores. Se a impureza e o desejo sexual atacam você, lembre-se da dor de Cristo quando sua carne macia foi açoitada, golpeada e ferida.
Se ódio, inveja ou sentimento de vingança atormentam você, pense nas lágrimas e nos gritos de Cristo quando orou por você e por todos os inimigos dele. Teria cabimento se ele se vingasse.
Se tristeza ou outras infelicidades torturam seu corpo ou seu espírito, anime o seu coração e diga: Ora, por que também eu não poderia passar por uma pequena tristeza? Afinal, no Getsêmani, meu Senhor suou sangue de tanto medo e tristeza.
Servo insensível e detestável seria aquele que quisesse ficar na cama, enquanto seu senhor tem que lutar na dor da morte. Como você vê, em Cristo podem ser encontrados força e alívio contra todos os vícios e defeitos. Nisto consiste a verdadeira reflexão sobre o sofrimento de Cristo. São estes os frutos de seu sofrimento. Quem se exercita no sofrimento dessa forma faz melhor do que se ficasse ouvindo toda a pregação da paixão ou lesse todas as missas. Não que as missas não sejam boas; é que sem essa meditação e sem esse exercício elas não adiantam nada.
Cristãos autênticos são aqueles que trazem a vida e o nome de Cristo para dentro de sua própria vida, assim como descreve São Paulo: "Os que pertencem a Cristo crucificaram sua carne, com todas as suas concupiscências, juntamente com Cristo" (Gálatas 5.24). O sofrimento de Cristo não deve ser tratado com palavras e coisas superficiais, mas com a vida e com verdade. São Paulo nos aconselha: "Pensem naquele que sofreu tamanha oposição das pessoas más, para que vocês sejam fortalecidos e suas mentes não desanimem" (Hebreus 12.3). E São Pedro: "Assim como Cristo sofreu em seu corpo, vocês devem armar-se e fortalecer-se com tal meditação" (1 Pedro 4.1). Mas essa contemplação caiu em desuso e se tornou rara. No entanto, as cartas de São Paulo e São Pedro estão cheias dela. Nós transformamos a essência numa ilusão e pintamos a reflexão sobre o sofrimento de Cristo apenas nas folhas e nas paredes.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

CULPA UNIVERSAL E O LIVRE-ARBÍTRIO - LUTERO

A culpa universal da humanidade prova que o "livre-arbítrio" é falso.

Em Romanos 1.18, Paulo ensina que todos os homens, sem qualquer exceção, merecem ser castigados por Deus. "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça." Se todos os homens possuem "livre-arbítrio", ao mesmo tempo que todos, sem qualquer exceção, estão debaixo da ira de Deus, segue-se daí que o "livre-arbítrio" os está conduzindo a uma única direção — da "impiedade e da iniqüidade". Portanto, em que o poder do "livre-arbítrio" os está ajudando a fazer o que é certo? Se existe realmente o "livre-arbítrio", ele não parece ser capaz de ajudar os homens a atingirem a salvação, porquanto os deixa sob a ira de Deus.
Algumas pessoas, no entanto, acusam-me de não seguir bem de perto a Paulo. Eles afirmam que as palavras dele, "contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" não significam que todos os seres humanos, sem exceção, estão culpados aos olhos de Deus. Eles argumentam que o texto dá a entender que algumas pessoas não "detêm a verdade pela injustiça". Entretanto, Paulo estava usando uma construção de frase tipicamente hebraica, que não deixa dúvida de que ele se referia à impiedade de todos os homens. Além do mais, notemos o que Paulo escreveu imediatamente antes dessas palavras.
No versículo 16, Paulo declara que o evangelho é "o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê". Isso significa que, não fosse o poder de Deus conferido através do evangelho, ninguém teria forças, em si mesmo, para voltar-se para Deus. Paulo prossegue, asseverando que isso tem aplicação tanto aos judeus quanto aos gentios. Os judeus conheciam as leis divinas em seus mínimos detalhes, mas isso não os poupou de estarem debaixo da ira de Deus. Os gentios desfrutavam de admiráveis benefícios culturais, mas esses não os aproximaram em nada de Deus. Havia judeus e gentios que muito se esforçavam por acertar a sua situação diante de Deus, mas, apesar de todas as suas vantagens e de seu "livre--arbítrio", eles fracassaram totalmente. Paulo não hesitou em condenar a todos eles.
Observemos igualmente que, no versículo 17, Paulo diz que "a justiça de Deus se
revela". Por conseguinte, Deus mostra a sua retidão aos homens. Deus, porém, não é um tolo. Se os homens não precisassem da ajuda divina, Ele não desperdiçaria o seu tempo prestando-lhes tal ajuda. A conversão de qualquer pessoa acontece quando Deus vem até ela e vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe a verdade do evangelho. Sem isso, ninguém jamais poderia ser salvo. Ninguém, durante toda a história humana, concebeu por si mesmo a realidade da ira de Deus, conforme ela nos é ensinada nas Escrituras. Ninguém jamais sonhou em estabelecer a paz com Deus por intermédio da vida e da obra de um Salvador singular, o Deus-Homem, Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é que os judeus rejeitaram a Cristo, apesar de todo o ensino que lhes foi ministrado por seus profetas. Parece que a justiça própria alcançada por alguns judeus ou gentios levou-os a deixarem de buscar a justiça Divina através da fé, para fazerem as coisas à sua própria maneira. Portanto, quanto mais o "livre-arbítrio" se esforça, tanto piores tornam-se as coisas.
Não existe um terceiro grupo de pessoas, que se situe em algum ponto entre os crentes e os incrédulos — um grupo de homens capazes de salvarem-se a si mesmos. Judeus e gentios constituem a totalidade da humanidade, e todos eles estão debaixo da ira de Deus. Ninguém tem a capacidade de voltar-se para Deus. Deus precisa tomar a iniciativa e revelar- Se a eles. Se fosse possível ao "livre-arbítrio" dos homens descobrir a verdade, certamente algum judeu, em algum lugar, tê-lo-ia feito! Os mais elevados raciocínios dos gentios e os mais intensos esforços dos melhores dentre os judeus (Rm 1.21; 2.23,28,29) não conseguiram aproximá-los nem um pouco sequer da fé em Cristo. Eles eram pecadores condenados juntamente com todo o resto dos homens. Ora, se todos os homens são possuidores de "livre-arbítrio", e todos os homens são culpados e estão condenados, então esse suposto "livre-arbítrio" é impotente para conduzi-los à fé em Cristo. Por conseguinte, a vontade dos homens, afinal, não é livre.

Segunda-feira, Setembro 18, 2006

O Mal Futuro ou o Mal a Nossa Frente - Martinho Lutero

Qualquer mal presente será bastante aliviado se voltares teu pensamento para os males futuros, que são tantos, tais e tão grandes que só a um deles é atribuído aquele grande e único dos principais sentimentos chamados temor; de acordo com a definição de alguns, e temor é o sentimento, chamado do mal futuro, de sorte que também o apóstolo diz em Rm 11.20: “Não sejas soberbos, mas teme”. E este mal é tanto maior quanto mais é incerto como será e em que medida, de maneira que se tornou comum o provérbio popular: “Não há idade imune à sarna”, ainda que este seja uma doença infantil, de crianças pequenas.

A tal ponto ninguém está livre e a salvo dos males de qualquer outra pessoa, mas qualquer coisa que um sofre, o outro também o pode sofrer. Isso vale para todos os acontecimentos históricos e tragédias de todos os tempos, os lamentos do mundo inteiro.

Vale, de acordo com o que certas pessoas observaram para as mais de 300 doenças que podem fazer sofrer o corpo humano. Se existem tantas doenças, de quantos outros males, achas, são atacados os bens, os amigos, por fim, a própria mente, que de todos os males é o objeto principal e o único receptáculo da tristeza e dos males?

A força e a percepção dos males aumenta quanto mais elevado e digno for o status no qual a miséria, a ignomínia e tudo quanto é coisa indigna (podem ocorrer ). E como também podem acontecer de repente, é necessário temê-las a toda hora, pois todas pendem de um tênue fio, como aquela espada que o tirano Dionísio ( Governante de Siracusa no século IV a.C. ) suspendeu sobre a cabeça de seu convidado.

Se, porém, alguns desses males não nos acontece, devemos considerar isso lucro e um grande consolo para o mal que nos ocorre de sorte que, também neste caso, és obrigado a confessar com Jeremias: “É pela misericórdia do Senhor que não somos consumidos” (Lm 3.22). Pois se algum desses males não nos aconteceu foi porque a mão direita do Excelso o impediu, mão que nos protege de todos os lados com tanto poder (como ficou demonstrado em Jó (1.10) que Satanás e os males ficam indignados por terem sido impedidos. Daí vemos com quanta doçura devemos amar ao Senhor sempre que nos acontece algum mal, porque por este um mal o amantíssimo Pai nos adverte a vermos quantos males nos ameaçam e nos atacariam, não os estivesse Ele próprio obstaculizando. É como se dissesse; “Satanás e um batalhão de males te procura e quer passar-te numa peneira” (Lc 22.31). Eu, porém, pus limite ao mar e lhe disse: “Até aqui venham e se quebrem tuas ondas ameaçadoras”, como ele diz em Jô 38.11.

E se acontecer que nenhum deles vier, se porventura Deus assim o quiser com toda certeza virá pelo menos aquele que é considerado de todos os horrores o pior, a morte, e nada é tão incerto como sua hora. Ela é um mal tão grande que vemos muita gente que preferiria viver com todos os males mencionados a, findos os males, morrer uma vez. E a esse um mal a Escritura, pondo de lado todos os demais, associa o temor dizendo: “Lembra-te do teu fim, e jamais pecarás” – Vê, quantas meditações, quantos livros, quantos métodos, quantos remedis foram ajuntados para, pela lembrança desse um único mal, afastar do pecado, tornar o mundo desprezível, aliviar sofrimentos e males e consolar os atribulados pela comparação de um mal tão horrível e grande, mas algum dia necessário.

Ninguém há que não preferisse sujeitar-se a todos esses males se com isso lhe fosse dado fugir do mal da morte. A este temeram também os santos, a ele se sujeitou Cristo com pavor e suor de sangue, de sorte que um nenhuma outra dificuldade a misericórdia divina cuidou de confortar os pusilânimes mais do que neste mal, como veremos abaixo.

Todos esses males, porém são comuns a todas as pessoas, como são comuns também os benefícios para a salvação (contidos ) nestes mesmos males.

Além disso, os cristãos têm mais outra e particular razão para temer o mal futuro, uma razão que supera facilmente todos os males até aqui referidos. É a que o apóstolo esboça em 1Co 10.12, dizendo: “Quem está de pé veja que não caia”.

O caminho é tão escorregadio, o inimigo tão forte, armado com nossas próprias forças (isto é, com apoio da carne e de todas as más inclinações), cercado de um incontável exército do mundo, os deleites e volúpias à direita, as durezas e más vontades das pessoas a esquerda, além da arte na qual está magistralmente instruído para prejudicar, seduzir, arruinar de mil maneiras. Destarte vivemos de modo tal que nem por um momento sequer estamos seguros de nosso bom propósito.

Em sua Epístola Da mortalidade, Cipriano, lembrando muitas coisas dessa espécie, ensina que se deve desejar a morte como um socorro rápido para escapar de tais males. De fato, onde houver pessoas de bom coração, que tratam de modo digno esses infinitos perigos do inferno, vemo-las desprezar a vida e a morte (isto é, todos os males antes referidos) e optar pela morte, para que sejam libertadas, ao mesmo tempo, do mal dos pecados no qual se encontram, como dissemos na primeira imagem, e do mal no qual podemos cair e do que falamos agora. De fato, estas são duas razões muitíssimo justas não só para desejar a morte, mas também para desprezar todos os males, e como muito mais razão ainda suportar um único mal com facilidade, se o Senhor conceder que alguém seja por eles comovido; pois é dádiva de Deus ser comovido por eles. Pois qual é o bom cristão que não desejaria até morrer, quanto mais adoecer, quando vê e sente que, enquanto vive são, está em pecado e pode continuamente cair em mais pecado, e cai todos os dias, e assim age, sem interrupção, contra a amabilíssima vontade de seu amabilíssimo Pai?

Foi por este calor de indignação que esteve comovido também Paulo em Romanos 7, ao deplorar que não fazia o bem que desejava, mas o mal que não desejava, de modo que exclamou: “Infeliz ser humano que sou! Quem me libertará do corpo desta morte? Graças a Deus”, diz ele, “por Jesus Cristo”, etc (Rm 7.24).

Ama pouco a Deus seu Pai aquele que não prefere o mal da morte ao mal do pecado, porque ele ordenou a morte para que esse mal (o mal do pecado) algum dia chegue ao fim e a morte esteja a serviço da vida e da justiça, do que falaremos depois.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

O MAL DENTRO DE NÓS - M. Lutero

ISTO É CERTO e verdadeiro, quer a pessoa creia, quer não: não pode haver na pessoa sofrimento tão grande que seja o pior dos males que estão dentro dela.

Os males que há dentro dela são muito mais numerosos e maiores do que ela sente. Porque se sentisse seu mal, sentiria o inferno, pois ela tem o inferno dentro de si. Tu perguntas: “Como”? O profeta diz: “Toda pessoa é mentirosa” (Sl 116.11) e: “Toda pessoa vivente é pura vaidade”. (Sl 39.5).

Ser mentiroso é vão, porém é ser distituído de verdade e realidade. Ora, estar sem verdade e realidade é estar sem Deus e nada ser. Isso, porém, significa estar no inferno e ser condenado. Por isso, quando Deus nos castiga em misericórdia, mostra e impõe-nos os males mais leves, sabendo que, se levasse o ser humano ao conhecimento de seu mal, este pereceria no mesmo momento. No entanto, a alguns permitiu uma prova disso, a respeito dos quais se diz: “Ele leva ao inferno e tira dele” (1Sm 2.6).

Por esta razão falam a verdade os que chamam os sofrimentos corporais de monitórias do mal dentro de nós. Em Hebreus 12.6 o apóstolo os chama de paternas disciplinas de Deus, dizendo: “Ele castiga a todo filho que recebe”. Isso ele faz para, por meio destes castigos e pequenos males, expulsar estes grandes males que então não precisaremos sentir, conforme se lê em Pv 22.15: “A tolice está instalada no coração da criança, mas a vara da disciplina a afugentará”. Não é verdade que os pais piedosos sofrem mais com os filhos quando são ladrões ou malvados do que quando estão feridos? Sim, eles próprios os surram e ferem par não poderem ser maus.


Que é, pois, o que impede que este verdadeiro mal seja sentido? Sem dúvida, como disse, porque Deus dispôs as coisas de tal maneira que o ser humano não perecesse ao enxergar seus males mais íntimos. Ele os esconde, querendo que sejam reconhecidos só pela fé, enquanto as aponta pelo mal perceptível. Por isso, ‘no dia mau lembre-se das coisas boas” (Eclo 11.27).

Vê que grande bem é não conhecer todo o mal. Lembra-te desse bem, e o mal perceptível torturará menos. Por outra, no dia das coisas boas lembra-te das coisas más, isso é, enquanto não sentes os verdadeiros males, sê grato nesta ausência de dor e lembra-te dos verdadeiros males, e acontecerá então que sentirás menos o mal perceptível. Assim, evidencia-se que, nesta vida, a ausência de dor na pessoa sempre é maior do que a dor, não porque não estivesse presente todo o mal, mas porque, pela bondade de Deus, que o esconde, a pessoa não tem consciência dele e não o sente.

Por isso vemos como aqueles aos quais é dado conhecer seu verdadeiro mal procedem com atrocidade contra si próprios, de sorte que consideram nada tudo que possam sofrer em toda a vida, contanto que não sintam seu próprio inferno. Assim procederia qualquer um se sentisse e cresse firmemente em seu mal interior, espontaneamente chamaria os males externos, diverti-se-ia com eles e jamais estaria mais triste do que quando não sofresse males, como fizeram alguns santos, conforme bem sabemos, por exemplo Davi no Salmo 6.

A primeira visão da consolação e portanto, dizer a si mesmo: Ó ser humana, por enquanto ainda não sentes o teu mal. Alegra-te e sê grato porque não és obrigado a senti-lo”. Assim, pela comparação com o máximo, o mal pequeno se torna leve. É isto que outros dizem: “Mereci algo bem pior, até mesmo o inferno” – algo tão fácil de dizer, mas tão insuportável de sentir.

Por mais, porém, que este mal seja latente, ainda assim produz frutos claramente perceptíveis. Tais como o temor e a incerteza da consciência abalada, pela qual é atacada a fé, quando a pessoa não sabe ou duvida se tem um Deus propício, fruto esse que é tanto mais amargo quanto mais fraca é a fé. E se tal fraqueza é avaliada condignamente, por ser espiritual, ela terá bem mais peso do que a fraqueza corporal, a qual também se torna levíssima quando comparada cuidadosamente com aquele.

Além disso contra entre os males internos toda aquela tragédia que o Eclesiastes ( cf Ec 1.2,14) – descreve,quando se refere tantas vezes à vaidade e aflição do espírito. Quantos propósitos tomamos em vão! Quantos desejos nossos são frustrados! Quantas coisas vemos, quantas coisas ouvimos contra nossa vontade! E mesmo as coisas que correm segundo o nosso desejo correm também contra nosso desejo. A tal ponto nada é completo e perfeito. Depois, todos estes (males ) são tanto maiores quanto mais alto o posto ou a posição em que alguém se encontra. Tal pessoa deve necessariamente passar por bem mais e maiores perturbações, tumultos e tempestades do que as demais que sofrem na mesmo situação, como diz, com razão, Sl 104.25: no mar deste mundo existem animais pequenos e grandes e répteis sem número, quer dizer, uma infinidade de tentações; por causa disso também Jó 7.1 chama a vida da pessoa uma tentação.

Estes males, no entanto, não deixam de ser males porque são menos percebidos, mas porque são aviltados pelo uso e pela assiduidade e porque, pela ação de Deus, são enfraquecidos os sentimentos e pensamentos relativos a eles.

Por isso comovem raras vezes a nós, que não aprendemos ainda a despreza-los por meio da experiência. A tal ponto é verdade que dificilmente sentimos a milésima parte de nossos males. A tal ponto, por fim, é verdade que medimos, sentimos ou deixamos de sentir nossos males não pelo que são de fato, mas pelo que pensamos e sentimos a seu respeito.

Sexta-feira, Setembro 08, 2006

O Mal Passado ou o Mal Atrás de Nós - M. Lutero

Como brilha de modo extraordinário a doce misericórdia de Deus Pai, capaz de nos consolar em toda nossa angústia. Porque ninguém sente a presença da mão de Deus sobre si com mais intensidade do que quando recorda os anos da vida passada. Diz o B. Agostinho: “Se fosse dada ao ser humano a escolha entre morrer e viver uma vez mais a vida passada, ele escolheria a morte ao ver os tão grandes perigos e males dos quais escapou com dificuldade e a muito custo”. Considerado condignamente, este anunciado é bem verdadeiro.

Pois aqui a pessoa pode ver o quanto fez e sofreu sem sua participação e cuidado, inclusive sem ou contra a sua vontade, coisas das quais não cogitou antes que acontecessem ou enquanto aconteciam, tanto que, depois de tudo acontecido, se admira e se vê obrigado a dizer: para que me aconteceram estas coisas das quais nunca cogitei ou que imaginei bem diferente?

Assim está certo o provérbio: “O ser humano se propõe, mas Deus é quem dispõe” (Pv 16.9), ou seja, dispõe ao contrário ou outra coisa do que a que o ser humano propõe, fazendo com que, neste um ponto, possamos negar que nossa vida e nossos atos não foram governados por nossa prudência, mas pelo maravilhoso poder, conselho e bondade de Deus. Aqui se reconhece quantas vezes Deus esteve conosco quando nem o vimos nem o sentimos, e como é verdadeiro o que disse Pedro: “Dele é o cuidado por todos nós” (1Pe 5.7).

Por isso, mesmo que não existissem livros nem sermões, nossa própria vida, conduzida através de tantos males e perigos, se considerada, nos encarece fartamente que a divina bondade está bem presente e é agradabilíssima, como a que nos carregou como em seu seio, muito acima de nosso pensamento e percepção, como diz Moisés em Dt 32.10: “O Senhor o guardou como a menina de seus olhos, guiou e carregou-o em seus ombros”.

Daí surgiram estas exortações no Saltério: “Lembrei-me dos dias de outrora, meditei em todas as tuas obras, e meditarei nas obras das tuas mãos”. (Sl 143.5) – “Lembrarei tuas maravilhas desde o início” (Sl 77.12). E: “Lembrei-me de teus juízos e estou consolado” (Sl 119.52).

Todas estas exortações e outras semelhantes intentam que saibamos que, se vemos que Deus esteve conosco naquela ocasião quando nem pensávamos nem víamos que ele estava presente, não devemos duvidar que está presente também agora quando nos parece ausente.

Aquele que nos sustentou em muitas necessidades, mesmo sem nossa participação, não nos abandonará no pouco, mesmo que pareça abandonar-nos, conforme diz Isaías: “Por um momento e por um pouco te abandonei, mas em grandes misericórdias de congreguei” (54. 7).

Se somares a estas ( citações das Escrituras ainda o seguinte ): quem tomou cuidado de nós durante as tantas noites em que dormimos? Quem tomou cuidado de nós enquanto trabalhávamos, brincávamos e fizemos toda aquela infinidade de coisas em que não tivemos nenhum cuidado de nós? Até mesmo o avarento, enquanto se preocupa em ganhar dinheiro, se vê obrigado a concentrar a atenção no buscar e agir.

Assim vemos como todo o cuidado por nós, queiramos ou não, recai somente sobre Deus e que muito raras vezes somos entregues a nossas próprias decisões, o que o Senhor faz mesmo assim, para nos ensinar a reconhecer a sua bondade, para que vejamos uma vez por outra, Deus permite que sejamos atacados por uma doença leve ou outro mal, dissimulando seu cuidado (pois não há momento em que não houvesse cuidado), impedindo, ao mesmo tempo, que tantos males que nos ameaçam de todos os lados nos assaltem ao mesmo tempo, para tentar-nos a nós, seus caríssimos filhinhos, (e verificar ) se estamos dispostos a confiar em seu cuidado, ademais reconhecido em toda a nossa vida, e ver quão inútil e impotente é nosso cuidado próprio. Em que somos ou podemos ser úteis a nós mesmos em toda a vida, nós que sequer somos capazes de curar uma única dor na perna pelo mais curto tempo? ( Lutero está pensando, provavelmente, na ocasião em que seccionou a artéria principal de sua coxa, quase morrendo de hemorragia).

Por que somos tão ansiosos no caso de um único perigo ou mal e não deixamos o cuidado a ele, quando a própria vida testemunha que somos arrancados e preservados por ele de tantos males, sem nossa participação?

Saber isto, digo, é conhecer as obras de Deus, meditar em suas obras e consolar-se nas adversidades na lembranças delas. Os que as ignoram incorrem naquilo que diz o Salmo 27 [28].5: “porque não entenderam as obras de Deus e as obras de suas mãos, tu destróis e não os edificarás”. Pois são ingratos com todo o cuidado que Deus teve com eles ao longo de toda a sua vida os que por um pequeno lapso de tempo não confiam a ele o cuidado por si próprios.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Das Boas Obras - Parte 1 - Martinho Lutero

DAS BOAS OBRAS

1. Em primeiro lugar, é preciso saber que não existem boas obras senão exclusivamente aquelas que Deus ordenou, da mesma forma como não existe pecado senão exclusivamente aquele que Deus proibiu. Por esta razão, quem quiser conhecer e praticar boas obras não precisa conhecer senão o mandamento de Deus. Em Mt 19.17 Cristo diz:

Se queres ser salvo, guarda os mandamentos”. E quando o rapaz pergunta (Mt 19.16,18) o que deveria fazer para salvar-se, Cristo lhe apontou senão os Dez Mandamentos. Por conseguinte, devemos aprender a distinguir as boas obras a partir dos mandamentos de Deus, e não baseados na aparência, na magnitude ou na quantidade das obras em si mesmas, tampouco na opinião das pessoas ou em leis ou costumes humanos, como vemos que tem acontecido e continua acontecendo por causa da nossa cegueira, com grande desconsideração dos mandamentos de Deus.

2. A primeira, suprema e mais nobre boa obra é a fé em Cristo, conforme ele diz em Jo 6. Quando os judeus lhe perguntaram: “Que devemos fazer para praticar boas obras divinas?”, ele respondeu; “A boa obra divina é que vocês creiam naquele a quem ele enviou” (Jo 6.28).

Agora quando ouvimos ou pregamos isto, passamos por cima e acreditamos tratar-se de algo insignificante e fácil de fazer, embora devêssemos deter-nos longamente neste ponto e refletir bem sobre ele. Pois nesta obra é que todas as obras precisam realizar-se, dela recebendo a influência de sua bondade como um feudo.


Isto temos que sublinhar enfaticamente, para que o possam compreender. Encontramos muitas pessoas que oram, jejuam, instituem fundações, praticam isto ou aquilo, levam uma vida correta perante os seres humanos. Todavia, se lhes perguntares se também têm certeza de que o que estão fazendo agrada a Deus, elas dizem: “Não”; não o sabem ou ficam em dúvida. Ademais, há também alguns grandes eruditos que as iludem, dizendo que não há necessidade de se ter certeza disto, ainda que no mais não façam outra coisa senão ensinar boas obras.

Vê, todas essas obras acontecem fora da fé. Por isto nada são e estão inteiramente mortas; pois assim como estão a fé em relação da consciência com Deus, assim também são as obras que daí resultam. Acontece agora que aí não há fé; não há boa consciência em relação a Deus, de sorte que às obras falta a cabeça, e toda a sua vida e bondade nada são. Daí é que, quando exalto sobremaneira a fé e CONDENO essas obras descrentes, acusam-me de proibir boas obras, ao passo que na verdade eu queria obras da fé realmente boas.

3. Se lhes perguntares ainda se também consideram boa obra quando estão trabalhando em seu ofício, andando, parados de pé, comento, bebendo, dormindo ou fazendo toda sorte de obra para o sustento do corpo ou para o bem comum, e lhes perguntares ainda se acreditam que Deus se compraz com eles nessas coisas, verás que dizem: “não” e têm um conceito tão estreito de boas obras, que ficam somente no orar na igreja, no jejuar e no dar esmolas, considerando as outras obras algo vão, que não interessa a Deus. Desta forma, reduzem e diminuem, por causa da maldita descrença, o serviço a Deus, ao qual presta serviço tudo quanto na fé possa ser feito, dito e pensado. Eclesiastes 9.7-9 ensina o seguinte:

“Vai com alegria, come e bebe, sabendo que tuas obras agradam a Deus. Em todo o tempo sejam brancas as vossas vestes, e não deixes que jamais falte óleo sobre a tua cabeça. Goza a tua vida com tua mulher que amas todos os dias que te foram dados neste tempo inconstante”. Serem sempre brancas as vestes, isto quer dizer: serem boas todas as nossas obras, seja lá como forem chamadas, sem qualquer distinção. Brancas elas são, porém, quando tenho certeza e creio que agradam a Deus, e assim jamais faltará sobre a cabeça da minha alma o óleo da consciência alegre. Neste sentido diz Cristo em Jô 8.29: “Eu faço sempre o que lhe agrada” – Como é que ele o faria sempre, já que comia, bebia, dormia a seu tempo? E João em 1Jo 3.9. E ainda Sl 33.22 – “Nenhum dos que nele confiam perecerá”. Sim, no Salmo 2.12: “Bem-aventurados são os que nele confiam”. Se isto é verdade, tudo que eles fazem tem que ser bom, ou será prontamente perdoado o que fizeram da mal. Ora, eis por que elevo tão alto a fé nele encerro todas as obras, rejeitando todas as obras que não emanam (dela).

4. Aqui cada qual pode notar e sentir por si mesmo quando é que está fazendo algo bom ou não-bom: se encontra seu coração na confiança de que agrada a Deus, então a obra é boa, ainda que fosse tão insignificante como levantar uma palha; se a confiança não está presente ou se duvida disso, então a obra não é boa, mesmo que fizesse ressuscitar todos os mortos e a pessoa permitisse ser queimada. Isso ensina Paulo em Rm 14.23: “Tudo que não sucede a partir da fé ou na fé é pecado”. É da fé, e de nenhuma outra obra, que recebemos a designação de crentes em Cristo. Esta é a obra primordial, pois todas as outras obras um pagão, judeu, turco ou pecador também pode fazer; porém firmemente que esteja agradando a Deus não é possível senão a um cristão iluminado e firmado pela graça.

A razão de estas palavras parecerem tão estranhas e de alguns me chamarem de herege por isso reside em que eles seguiram a razão cega e a ciência pagã, colocando a fé não acima, mas ao lado de outras virtudes, atribuindo-lhe uma obra própria, isolada de todas as obras das outras virtudes. Na realidade, é a fé que, sozinha, torna todas as outras obras boas, agradáveis e dignas pelo fato de confiam em Deus e não duvidar que, perante ele, tudo o que a pessoa fizer está bem feito. Sim, eles não deixaram a fé ser uma obra, mas dela fizeram um HABITUS, como dizem, embora toda a Escritura dê unicamente à fé a designação de boa obra divina. Por isso não causa surpresa que tenham ficado cegos e se transformado em guias de cegos. E esta fé traz imediatamente consigo o amor, a paz, alegria e esperança. Pois quem confia em Deus, a este ele imediatamente dá o Seu Espírito Santo, como diz Paulo aos gálatas: “Vocês receberam o Espírito não de sua boas obras, mas por terem crido na palavra de Deus” (Gl 3.2).

5. Nesta fé todas as obras se tornam iguais, e uma é como a outra, caindo fora toda distinção entre obras, sejam elas grandes, pequenas, breves, longas, muitas ou poucas. Porque as obras são agradáveis não por si mesmas, mas por causa da fé. É somente esta que sem distinção está presente, atuante e viva em toa e qualquer obra, por mais diferentes e numerosas que sejam as obras, da mesma forma como todos os membros vivem, funcionam e recebem da cabeça o seu nome; sem a cabeça, membro algum pode viver, funcionar ou ter um nome. Disso se segue ainda que um cristão, vivendo nesta fé, não precisa de um mestre de boas obras, mas faz o que se lhe apresenta, e está tudo bem feito, como Samuel disse a Saul: “Tu te tornarás outra pessoa quando o Espírito entrar em ti; faze então o que te estiver à mão, Deus está contigo.” (1Sm 10.6) – Algo idêntico lemos também a respeito de Ana, a mãe de Samuel: ao crer no sacerdote Eli, que lhe anuncia a graça de Deus, ela foi para casa contente e em paz, e desde então não mais se importou com isso e aquilo, isto é, tudo o que lhe sobreveio se lhe tornou igual e uma só coisa. (1Sm 1.17). Também Paulo diz: “Onde está o Espírito Santo, tudo é livre” (Rm 8.2). Pois a fé não se deixa prender a nenhuma obra; da mesma forma também não permite que se lhe tome nenhuma, mas, como diz o Salmo 1.3, “dá seu fruto no devido tempo”, isto é, segundo o ir e vir.

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

DO CATIVEIRO BABILÔNICO DA IGREJA (Introdução)

Desde a publicação de seus sermões sobre os sacramentos, em 1519, Lutero não parou de elaborar sua visão dos sacramentos. O aspecto ao qual maior atenção dedicou foi a missa, pois suas colocações de 1519 haviam sido bastante reticentes. Em julho de 1520, após haver pregado sobre a questão na quaresma daquele ano, publicou “Um sermão a respeito do Novo Testamento, isto é, a respeito da santa missa”. Com essa publicação estava consciente de ter provocado “novo incêndio”.

Na festa de Corpus Christi criticaria a própria festa, como sendo baseada em obras, enquanto que a Eucaristia teria a finalidade de fortalecer a fé dos crentes. Nos debates acadêmicos de 1520, Lutero e Melanchthon continuaram a desenvolver a teologia dos sacramentos.

Em fins de junho, Alveld publicara um tratado sobre a comunhão dos leigos nas duas espécies. Nele, lamentou o silêncio das autoridades eclesiásticas relativamente aos ataques que a Igreja vinha sofrendo. Partindo de João 6, procurou fundamentar a comunhão dos leitos sob uma das espécies e defender a prática sacramental vigente.

Lutero não reagiu, mas deu a entender que faria uma publicação, frente à qual as “víboras” ficariam ainda mais confusas. A 6 de outubro seria publicado, então, o escrito latino “De captivitate Babylonica ecclesiae praeludium”

O título é uma referência altamente crítica à Igreja, pois afirma que o povo de Deus está sendo mantido cativo com outrora o fora o povo de Israel no exílio. Todo o escrito, aliás, é pensado a partir do povo e nos mostra um Lutero teólogo a partir do povo. Lutero apresenta
o que tem a dizer em um “prelúdio”, com o que está a indicar que ainda tem outras questões de reserva, pretendendo apresenta-las oportunamente.

O “prelúdio” supera tudo o que Lutero até então escrevera contra a Igreja Romana. Já na dedicatória a Germano Tulich ( Nascido em Steinheim/ Paderborn e falecido a 28/07/1540 em Lüneburgo. Filólogo em Wittenberg. Causou sensação na época, o fato de Tulich haver sido eleito canônico, mas negar-se a receber a ordenança episcopal) – Lutero revoga o dito nas “Explicações do debate sobre o valor das indulgências”, pois as mesmas são muito brandas.

Seus escritos sobre as indulgências não deveriam mais ser editados, ou, quando muito, ser antecedidos pela tese: “As indulgências são maldades dos aduladores romanos”. Seus livros contra o papado deveriam ter a proposição: “O papado é uma violenta caçada do bispo romano” A Alveld e a Isidoro Isolani ( Membro da ordem dominicana. Foi professor de Teologia em diversos centros de formação da congregação lombarda. Em 1519, publicou “Revocatio Martini Lutheri Augustiani ad sanctam sedem ) – queria dar ocasião para que se chocassem com sua nova heresia: “... são ímpios todos aqueles que negam aos leigos a comunhão de ambas as espécies” . O tom é de ataque.

Tema do “prelúdio” são os sacramentos, o centro e sustentação da Igreja de então. Lutero nega abertamente o número dos sete sacramentos e reconhece apenas três: Batismo, Penitência e Pão (Eucaristia - Ceia ). Também eles estão aprisionados por Roma. Toda a Igreja perdeu sua liberdade. Lutero revoga seu “Sermão sobre o venerabilíssimo Sacramento do santo e verdadeiro Corpo de Cristo e sobre as irmandades”, pois época esta preso ao uso comum, sem preocupar-se com o fato de o papa estar ou não com a razão. Agora quer afirmar livremente o que pensa.

Ambas as espécies da Eucaristia devem ser dadas a sacerdotes e leigos. A Igreja não tem autoridade para alterar algo nesse aspecto, pois seria tirania. Na negação do cálice aos leitos temos o primeiro cativeiro da Eucaristia. A liberdade tem que ser restabelecida. Menos grave é o segundo cativeiro da Eucaristia. A liberdade tem que ser resolvida a partir da filosofia aristotélica na Idade Média. Importante para Lutero é que, mercê do poder da palavra, o corpo de Cristo está presente na Eucaristia. A palavra de Cristo é que une os elementos e Cristo. O mais ímpio cativeiro da Eucaristia, no entanto, é o fato de se ter feito dela a base da alimentação dos sacerdotes e dos monges. Lutero parte, então para a apresentação de sua “nova” doutrina eucarística, a qual é desenvolvida a partir dos conceitos “promessa” e “fé”. O silêncio em torno da promessa é mais um cativeiro, do qual resulta todo o ativismo da obras. Lutero critica, por isso, acerbamente a idéia de sacrifício contida no Cânone da Missa.

No tocante ao Batismo, o reformador julga que este sacramento permanecer “ilibado e incontaminado”. No entanto, ele praticamente não tem espaço na piedade popular, por causa da concorrência do Sacramento da Penitência. Também aqui, Lutero desenvolve a doutrina do batismo em íntima relação com a promessa. Destacada é também a relação entre Batismo e liberdade cristã: ninguém pode impor lei alguma aos cristãos “a não ser até onde eles o permitirem, pois somos livres de tudo”. O que mais prejudica a liberdade cristã são os votos.

Na prática da Penitência, Lutero critica o fato de que a promessa contida na palavra de absolvição está sendo deixada de lado, enquanto se acentuam as obras humanas da contrição, da confissão e da satisfação. Especialmente tirânica é a confissão auricular. No estudo da Penitência, vemos como o conceito de sacramento ainda está evoluindo em Lutero. No início do escrito ela ainda é vista como sacramento, no final não o é mais, pois falta-lhe o elemento constitutivo do sinal externo.

Crisma, matrimônio, ordem e extrema-unção não podem ser considerados sacramentos, à luz das Escrituras.

“Do Cativeiro babilônico da Igreja” é um escrito que busca o confronto com os adversários. Lutero quer ver nele “uma parte de minha futura retratação”. Esta retratação está sendo dele exigida na bula de ameaça de excomunhão ( e a fogueira ), entrementes publicada. Ao mesmo tempo anuncia a continuação do escrito.

As conseqüências desse escrito na discussão futura eram previsíveis, pois Lutero destrói com ele a instituição sacramental, a Igreja que regula a vida dos cristãos do nascimento até a morte, e retira os cristãos do controlo da Igreja. O escrito todo fala de liberdade: Libertação dos sacramentos e libertação dos cristãos. Lutero está convicto de haver redescoberto a compreensão neotestamentária dos sacramentos e do sacerdócio. Os sacramentos são dádiva, o sacerdócio é serviço.

O escrito atraiu alguns e provocou o revide de outros. Atraído foi João Bugenhgen (1485- 1558 / natural de Wollin, na Pomerânia, estudou em Greifswald. Em 1509 foi ordenado sacerdote. Tornou-se adepto de Lutero a partir da leitura do escrito “ Do cativeiro babilônico da Igreja”, indo, então, estudar teologia em Wittenberg. Em 1523, passa a ser professor da universidade local, mas já ocupa as funções de pastor da Igreja da cidade desde 1522, com Walburga Rörer. Íntimo amigo de Lutero, colaborou na tradução da Bíblia, foi também conselheiro e confessor. Decisivas são suas contribuições para a compreensão naqueles dias do ministério e da comunidade. São inúmeras as regiões que foram por ele Reformadas. Nelas buscou criar escolas e universidades) – que viria ser íntimo colaborador de Lutero em Wittenberg; o revide veio, entre outros, da parte de Henrique VIII ( 1508 – 1547), rei inglês, da dinastia Tudor. Interessado em questões teológicas, arte e música, provocou o surgimento da Igreja da Inglaterra, quando não conseguiu ter herdeiro homem de sua esposa Catarina de Aragão, solicitou de Roma a anulação deste matrimônio. A negativa de Roma levou ao rompimento com a Igreja Católica Romana. Antes deste rompimento, em virtude de sua fidelidade ao papa e aos ataques feitos a Lutero, recebera o título de “Defensor da Fé” ) – da Inglaterra, que em julho de 1521 publicou a "Afirmação dos Sete Sacramentos”

Martin N. Dreher

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

DAS BOAS OBRAS – INTRODUÇÃO

Desde que Lutero pregou e ensinou a justificação do pecador pela graça de Deus, mediante a fé, estava confrontando a questão das boas obras. Freqüentemente foi acusado de aboli-las. Seus opositores concluíram que quem é justificado mediante a fé não precisa mais fazer boas obras.

Numa prédica, Lutero prometeu publicar ocasionalmente um pequeno escrito (um “Sermão” ) sobre a questão. Mas quando se envolveu, no início de 1520, numa polêmica com o bispo de Meissen (Saxônia), aparentemente se esqueceu de seu plano. Em fevereiro de 1520, seu amigo Jorge Espalatino (
Biografia), secretário do príncipe-eleitor Frederico o Sábio, da Saxônia, lembrou-o de sua promessa. Lutero lhe respondeu, em 24 de fevereiro, que não se lembrava de nada. Mas dois dias mais tarde comunicou ao amigo que havia recuperado a memória e que começaria a eleborar o escrito. Devido à importância e amplitude teológica e prática da questão, surgiu, em aproximadamente três meses, em vez do breve ensaio originalmente planejado, o livrinho intitulado “Das Boas Obras”, em língua alemã.

O escrito foi impresso, na medida em que Lutero o redigiu, na gráfica de Melquior Lotther Júnior, em Wittenberg. Em fins de 1520 houve sete reedições, publicadas nas cidades de Wittenberg, Nürnberg, Augsburgo, Basiléia e Hegenau. Outras cinco reedições foram piblicados, entre 1520 e 1525, nas cidades de Augsburgo, Wittenberg e Basiléia. Houve ainda uma edição em baixo alemão (1521), impressa na cidade de Halberstadt, e traduções para o latim, impressa, entre 1521 e 1525, em Leipzig, Wittenberg e Basiléia. A obra foi traduzida também para o holandês ( por volta de 1525), o francês (1530) e o inglês (1535). (O texto que usaremos aqui é o da 1ª edição).

Aconselhado por Espalatino, Lutero dedicou o livrinho ao duque João, o Constante, da Saxônia (1468 – 1532 ), irmão, co-governante e, desde 1525, sucessor de Frederico, O Sábio. Na verdade, porém, ele se dirigiu aos “leigos sem instrução”.

O livrinho “Das Boas Obras” é a primeira das obras programáticas clássicas de Lutero do ano de 1520. O próprio Lutero o considerou como o melhor dos escritos que tinha publicado até então ( Carta a Espalatino, de 25 de março de 1520). Para o historiador eclesiástico católico Erwin Iserloh, este escrito é, “talvez o mais importante do ano decisivo” de 1520). A obra apresenta, de maneira melhor do que o tratado sobre a liberdade cristã, um a “síntese da vida cristã”. Nela Lutero lança as bases da ética evangélica, em forma de explicação dos Dez Mandamentos. Baseia-se, por um lado, em trabalhos anteriores sobre o Decálogo, como por exemplo, a “Breve forma dos Dez Mandamentos”, de 1518. Por outro lado, o escrito “Das Boas Obras” é uma das etapas no caminho que leva aos catecismos de Lutero.

Na tradição teológica entendeu-se por “boa obra” aquele agir humano pelo qual o cristão merece receber a graça de Deus. Lutero preserva o conceito de “boa obra”, mas dá-lhe um sentido novo, EVANGÉLICO. “Boa Obra” é, em primeiro lugar, o que Deus fez e faz em Cristo por nós e em nós. A próprio fé é “boa obra divina”; Deus no-la DÁ de PRESENTE. A rigor, a fé é, para Lutero, a única “obra” que merece ser chamada de boa.

Em sua ética, Lutero parte do primeiro mandamento do Decálogo. Neste mandamento Deus exige que depositemos toda a nossa confiança e esperança nele, pois somente ele é Deus. Cumprimos este mandamento não com nosso agir, e sim com e em nossa fé. Lutero explica isso detalhadamente na primeira parte de seu escrito.

A fé transparece na vida cotidiana do cristão e lhe indica o rumo a ser tomado. “...é da fé que a pessoa justo tem sua vida”, traduz Lutero a afirmação do apóstolo Paulo em Rm 1.17.

Nas demais partes do seu escrito, Lutero mostra como isso se concretiza nos diversos setores e nas múltiplas situações do dia-a-dia do cristão, seguindo a seqüência dos mandamentos do Decálogo. Explica-os, em primeiro lugar, em seu sentido positivo, mesmo que estejam formulados como proibições. Entende-os sempre a partir do primeiro mandamento: conduta e agir dos cristãos são frutos da fé.

Somente uma conduta que procede da fé é uma conduta cristã e, por conseguinte, boa. Neste sentido Lutero diz que a fé é “mestre de obra e capitão em todas as boas obras”. A fé nos capacita e nos impele a praticarmos boas obras. Somente a fé nos dá a liberdade de agirmos “com o coração contente, tranqüilo e seguro”, isto é, com boa consciência diante de Deus. Todavia a vida cristã, pois, é práxis da fé. Desta maneira, a doutrina da justificação pela fé evidencia-se como “centro e limite” também da ética evangélica, bem como de toda a TEOLOGIA DA REFORMA.

Com sua nova concepção da ética, Lutero derruba todo sistema ético que atribui a cada “obra” um valor diferente em relação à fé. Supera a distinção entre uma moral para os cristãos “comuns” e outra para os “mais perfeitos”, ou seja, religiosos e religiosas. A vida cristã constitui uma unidade; não pode ser dividida num setor “profano” e noutro “piedoso”: são “boas todas as nossas obras, seja lá como forem chamadas, sem qualquer distinção... quando tenho certeza e creio que agradam a Deus”.

Desta maneira Lutero confere ao labor diário, que constitui a maior parte da nossa vida, uma dignidade completamente nova. Ela abrange, antes de tudo, o exercício da profissão, mas também atividades tão “triviais” como caminhar, comer, beber, dormir... Esse enfoque possibilita que se tome uma atitude para a qual a vida tem sentido também em situações e momentos de sofrimento. Pois, perante Deus, a vida sempre é preciosa.

Lutero critica duramente a doutrina das assim chamadas boas obras, divulgada pela Igreja de sua época. Argumenta que nessa doutrina se estabelece, com base em prescrições humanas, qual a conduta que pode se considerada boa. Lutero vê nisso um abuso do conceito de “boa obra”. Boa é unicamente a conduta que Deus ordenou em seu mandamento. Também no campo da ética, pois Lutero afirma a palavra de Deus como norma crítica frente a todas as normas humanas. Mas não é sua intenção levar os cristãos a desistirem de fazer o bem, como seus adversários o acusaram. Ao contrário, quer levar os cristãos a praticarem “as obras certas, autênticas, realmente.... boas e crentes”. Como diretriz lhe servem, em vez da verdadeira “feira” das inúmeras exigências e preceitos eclesiásticos, os Dez Mandamentos de Deus, breves, simples, ricos em conteúdo e abrangentes. Eles são, na compreensão evangélica, um convite cordial pra a fé e para a práxis da fé no serviço ao próximo e ao mundo.

Joachim Fischer

Terça-feira, Agosto 15, 2006

"Deixem Deus ser Deus": A Predestinação de Acordo com Martinho Lutero


O problema da predestinação é levantado pela especificidade da tradição judeu-cristã: o fato de que Deus revelou-se exclusivamente num povo, Israel, e supremamente num homem, Jesus de Nazaré. Jesus, assim como Paulo, falou dos “eleitos” e dos “poucos escolhidos”. A tensão entre a livre eleição de Deus e a resposta humana genuína está presente já nos documentos do Novo Testamento. Entretanto, Agostinho, em sua luta clássica com Pelágio, foi quem primeiramente desenvolveu uma doutrina madura da predestinação.

Para Pelágio, a salvação era uma recompensa, o resultado das boas obras livremente realizadas pelos seres humanos. A graça não era algo diferente ou além da natureza, nem acima dela; a graça estava presente dentro da própria natureza. Em outras palavras, a graça era simplesmente a capacidade natural, que todos possuem, de fazer a coisa certa, de obedecer aos mandamentos e assim obter a salvação. Agostinho, por outro lado, via um grande abismo entre a natureza, em seu estado caído, e a graça. Profundamente cônscio da impotência total de sua própria vontade em escoher corretamente. Agostinho entendia a salvação como a livre e surpreendente dadivda de Deus: “Atribuo à tua graça e misericórdia, porque dissolveste meus pecados como se fossem gelo”. Se, entretanto, a fonte de nossa conversão a Deus reside não em nós mesmos, mas somente no bom prazer de Deus, por que alguns reagem positivamente ao Evangelho, enquanto outros o desprezam? Essa pergunta levou Agostinho à discussão paulina da eleição, exposta em Romanos 9-11.

Durante os mil anos transcorridos entre Agostinho e Lutero, a principal corrente da teologia medieval dedicou-se a dissolver o severo predestinacionismo daquele. É verdade que Pelágio fora condenado no Concílio de Éfeso (431), e o semipelagianismo, a saber, a visão de que ao menos o inicio da fé, o primeiro voltar-se para Deus, era resultado do livre-arbítrio, foi rejeitado pelo II Concílio de Orange (529). Contudo, a
maioria dos teólogos, tentou modificar a doutrina de Agostinho, enfraquecendo a base da predestinação. Alexandre de Hales recorreu ao principio da eqüidade divina: “Deus relaciona-se de igual para igual com todos”. Outros afirmavam que a predestinação era subordinada ao conhecimento prévio, ou seja, Deus elege aqueles que sabe com antecedência que receberão méritos de seu próprio livre-arbítrio. Nenhuma dessas teorias da salvação era “puramente” pelagiana, porque todas requeriam a assistência da graça divina. Ainda assim, o fator crucial continuava sendo a decisão humana de responder positivamente a Deus, em lugar da livre e desacorrentada decisão de Deus de escolher quem desejasse.

Vimos como a doutrina da justificação sustentada por Lutero rompeu decisivamente com o modelo agostiniano de distribuição progressiva da graça. Somos justificados não porque Deus nos está tornando gradualmente justos, mas porque fomos declarados justos com base no sacrifício expiatório de Cristo. Contudo, a partir do princípio anterior da sola gratia , Lutero – e Zuínglio e Calvino depois dele – permanece firme com Agostinho contra os “pelagianos” posteriores que exaltam o livre-arbítrio humano à custa da livre graça de Deus. Nesse aspecto, a linha principal da Reforma Protestante pode ser vista como uma “aguda agostinianização do cristianismo”. Alguns historiadores consideram a doutrina da predestinação de Lutero uma aberração de seus temas principais ou, na melhor das hipóteses, “um pensamento meramente auxiliar”. Mas Lutero via o assunto de maneira diferente. Respondendo ao ataque de Erasmo a essa doutrina, Lutero elogiou o humanista por não aborrecê-lo com questões insignificantes como o papado, o purgatório ou as indulgências. “Apenas você”, ele disse, “atacou a questão verdadeira, isso é, a questão inicial [...] Apenas você percebeu o eixo ao redor do qual tudo gira, e apontou para o alvo vital.”

Uma das queixas de Lutero contra os “teólogos-porcos” era a tese deles de que a vontade humana, em sua própria volição, poderia realmente amar a Deus todas as coisas, ou que, ao fazer seu melhor, mesmo à parte da graça, alguém poderia obter certa permanência perante Deus. A essa avaliação otimista do potencial humano, Lutero opôs um duro contraste entre natureza e graça. “A graça coloca a Deus no lugar no lugar de tudo o mais que ela vê, e o prefere a si mesma, mas a natureza coloca a si mesma no lugar de tudo, e mesmo no lugar de Deus, e busca apenas o que lhe é próprio e não o que é de Deus”. Como “natureza” Lutero não queria dizer simplesmente o reino criado, mas sim o reino criado decaído e particularmente, a vontade humana decaída, que esta “curvada sobre si mesma” ( incurvatus in se ), “escravizada” e manchada com o mal em todas as suas ações. Na Disputa de Heidelberg, em 1518, Lutero defendeu a tese: “Depois da queda, o livre-arbítrio existe apenas nominalmente, e, enquanto, alguém ´faz o que está em si´, está cometendo um pecado mortal”. Inclui-se essa formulação na bula Exsurge Domine , pela qual o Papa Leão X excomungou Lutero, em 1520.

Então, será que Lutero era um determinista absoluto? Erasmo e alguns estudiosos pensavam assim. Lutero, de fato, aproximou-se perigosamente de linguagem necessitariana. Todavia, ele nunca negou que o livre-arbítrio mantém seu poder em assuntos que não se relacionam com a salvação. Assim, Lutero disse a Erasmo: “Sem dúvida você está certo em conferir ao homem algum tipo de livre-arbítrio, mas imputar-lhe um arbítrio que seja livre nas coisas de Deus é demais”. Lutero admitiu abertamente que mesmo uma vontade escravizada “não é um nada”, que, com respeito àquelas coisas “inferiores” a ela, a vontade mantém seu poder total. É apenas com respeito àquilo que é “superior” a ela que a vontade é mantida presa em seus pecados e não pode escolher o bem de acordo com Deus. Aqui, encontramos um paralelo ao desprezo de Lutero para com a razão. Em sua esfera legítima, a razão é o mais elevado dom de Deus, mas no momento em que excede para a teologia, torna-se a “prostituta do diabo”. O mesmo se dá com o livre-arbítrio. Entendido como a capacidade vinda de Deus para tomar decisões ordinárias, para cumprir as responsabilidades no mundo, o livre-arbítrio permanece intacto. O que ele não pode fazer é realizar a própria salvação. Nesse sentido, o livre-arbítrio está totalmente corrompido pelo pecado e cativo a Satanás.

Lutero descreveu a natureza dessa escravidão sob o aspecto de uma luta entre Deus e Satanás.

Assim, a vontade é como um animal entre dois cavaleiros. Se Deus o monta, ele quer ir e vai aonde Deus quer. [...] Se Satanás o monta, ele quer ir e vai aonde Satanás quer; ele não pode escolher correr para um deles ou seguir a um deles, mas os próprios cavaleiros brigam pela posse e controle dele.

Mesmo tendo alguns estudiosos encontrado traços de um dualismo maniqueísta nessa metáfora, Lutero estava meramente desenvolvendo uma imagem já apresentada por Jesus: “...todo o que comete pecado é escravo do pecado” e “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe aos desejos...” (Jo 8.34,44). Há outro ponto que Lutero desenvolveu com respeito à vontade escravizada. Embora nosso destino eterno, em certo sentido, seja determinado por Deus, não somos com isso compelidos a pecar. Pecamos espontânea e voluntariamente. Continuamos querendo e desejando fazer o mal, a despeito do fato de que em nossas próprias forcas não podemos fazer nada para alterar essa condição. Essa é tragédia da existência humana se a graça: estamos tão curvados sobre nós mesmos que, pensando estar livres, entregamo-nos exatamente àquelas coisas que apenas aumentam nossa escravidão.

O propósito da graça é libertar-nos da ilusão da liberdade, que é na verdade escravidão, e guiar-nos para a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus”. Só quando a vontaade recebeu a graca, ou, para usar sua outra metáfora, só quando Satanás é vencido por um cavaleiro mais forte, “é que o poder da decisão torna-se realmente livre, em todos os aspectos concernentes à salvação”. A verdadeira intenção por trás do reforço de Lutero à vontade escravizada mostra-se óbvia agora. Deus deseja que possamos ser verdadeiramente livres em nosso amor para com ele; contudo, isso não é possível até que sejamos libertos de nosso cativeiro a Satanás e ao ego. O eco de resposta à escravidão da vontade é a liberdade do cristão .

Visto que, fora da graça, o homem não possui nem uma razão sã, nem uma vontade boa, “a única preparacao infalível para a graça [...] é a eleição eterna e a predestinação de Deus”. Lutero não se esquivou de uma doutrina de predestinação absoluta e dupla, ainda que admitisse que “isso é um vinho muito forte e comida substancial para os fortes”. Ele até restringiu o alcance da expiação aos eleitos: “Cristo não morreu por todos absolutamente”. Contra a objecao de que tal visão transformava Deus num ogro arbitrário, Lutero respondeu – como Paulo – “Deus assim o quer, e porque ele o quer, isso não é perverso”. A “prudencia da carne” diz que “é cruel e miseravel Deus buscar sua glória em minha maldade. Ouça a voz da carne! ´Meu, minha´, diz ela! Lance fora esse ´meu´ e diga, em lugar disso ´Glória a ti, Snhor´, e você será salvo”. A postura da razão é sempre de egocentrismo. Deus é apenas tão “injusto”, falando estritamente, ao justificar os ímpios à parte de seus méritos, quanto o é ao rejeitar outros à parte de seus deméritos. Ainda assim, ninguém reclama da primeira “injustiça”, porque o interesse pessoal está em jogo! Em ambos os casos, Deus é injusto pelos padrões humanos, mas justo e verdadeiro pelos seus. Lutero recusou-se a submeter Deus ao tribunal da justiça humana como se a “Majestade, que é o criador de todas as coisas, tivesse de curvar-se a uma das escórias de sua criação”. “Deixem Deus ser bom”, clamava Erasmo, o moralista. “Deixem Deus ser Deus”, replicava Lutero, o teólogo.

Embora Lutero nunca tenha suavizado sua doutrina da predestinação (como fizeram posteriormente os luteranos), ele de fato tentou estabelecer o mistério no contexto da eternidade. Lutero nunca admitiu que os inescrutáveis julgamentos de Deus eram realmente injustos, mas sim que somos incapazes de apreender o quanto são justos. Há, segundo ele, três luzes – a luz da natureza, a luz da graça e a luz da glória. Pela luz da graça, tornamo-nos capazes de entender muitos problemas que pareciam insolúveis pela luz da natureza. Mesmo assim, na luz da glória, os retos julgamentos de Deus – incompreensíveis para nós agora, mesmo pela luz da graça – serão abertamente manifestos. Lutero, então, apelava para a reivindicação escatológica da decisão de Deus na eleição. A resposta ao enigma da predestinação encontra-se no caráter oculto de Deus, por trás e alem de sua revelação. No final, quando tivermos prosseguido através das “luzes” da natureza e da graça para a luz da glória, o “Deus escondido” se mostrará um só como o Deus que está revelado em Jesus Cristo e proclamado no Evangelho. Nesse ínterim, Lutero admitiu, podemos apenas acreditar nisso. A predestinação, como a justificação, é também sola fide.

Ninguém conhecia melhor do que Lutero a angústia que o duvidar da própria eleição podia provocar numa alma vacilante. Como um pastor poderia responder a alguém que estivesse atormentado por esse problema? Lutero deu duas respostas a essa questão, uma para o cristão forte, a outra para o mais fraco ou para o novo convertido. A mais alta posição entre os eleitos pertence àqueles que “se conformam com o inferno se Deus o deseja”. A resignação com o inferno era tema popular na tradição mística e significava passividade absoluta, um total deixar-se perder ( Gelassenheit ) ante o abismo do ser de Deus. Lutero dizia que Deus dispensava esse dom aos eleitos de maneira breve e escassa, quase sempre na hora da morte.

Mais, comumente Lutero era chamado a aconselhar cristãos comuns que estavam atormentados pela questão da eleição. O conselho básico de Lutero era: “Agradeça a Deus por seus tormentos!”. É característico dos eleitos, não dos réprobos, tremer em face dos desígnios ocultos de Deus. Além disso, ele instava por uma completa refutação do diabo e uma contemplação de Cristo. Foi típica sua resposta a Bárbara Lisskirchen, que estava aflita sentindo não se encontrar entre os eleitos:

“Quando tais pensamentos a assaltam, você deve aprender a perguntar a si mesma: “Por favor, em que mandamento está escrito que eu deva pensar sobre esse assunto e lidar com ele?”. Quando parecer que não há tal mandamento, aprenda a dizer: “Saia daqui, maldito diabo! Você está tentando fazer com que eu me preocupe comigo mesma. Meu Deus declara em todos os lugares que eu devo deixá-lo tomar conta de mim [...]”. A mais sublime de todas as ordens de Deus é esta, que mantenhamos diante de nossos olhos a imagem de seu Filho querido, nosso Senhor Jesus Cristo. Todos os dias ele deve ser nosso excelente espelho, no qual contemplamos o quanto Deus nos ama e quão bem, em sua infinita bondade, ele cuidou de nós ao dar seu Filho amado por nós. Desse modo, eu digo, e de nenhum outro, um homem aprende a lidar adequadamente com a questão da predestinação. Será evidente que você crê em Cristo. Se você crê, então será chamada. E, se é chamada, então muito certamente está predestinada. Não deix que esse espelho e trono de graça seja quebrado diante de seus olhos [...] Contemple o Cristo dado por nós. Então, se Deus desejar, você se sentirá melhor”.

A doutrina da predestinação defendida por Lutero não era motivada por interesses especulativos ou metafísicos. Era uma janela para a vontade graciosa de Deus, que se ligou livremente à humanidade em Jesus Cristo. A predestinação, como a natureza do próprio Deus, só pode ser atingida mediante a cruz, mediante as “feridas de Jesus”, às quais Staupitz havia dirigido o jovem Lutero em suas primeiras batalhas.

Timothy George

Domingo, Julho 09, 2006

Debate do Reverando Dr. Martinho Lutero Acerca do Homem (1536) - Parte 2 - As 40 Teses do Debate.

01 - A filosofia, ou ciência humana, define o homem como um ser com razão, sentimento e corpo.

02 - Neste momento não é necessário discutir se o homem é chamado própria o ou impropriamente de ser vivo (Em latim: animal = ser que possui "anima" - respiração, fôlego... ).

03 - Mas é preciso saber que esta definição diz respeito ao homem apenas enquanto mortal e ao espação de sua vida.

04 - E certamente é verdade que a razão é o que há de mais importante e mais elevado, sendo, em comparação com as outras coisas desta vida, a melhor e algo divino.

05 - Ela é inventora e mentora de tadas as artes, das ciências médicas, da jurisprudência e de qualquer sabedoria, poder, virtude e glória que os homens possuem nesta vida.

06 - Por isso convém que ela deva ser chamada de diferença essencial pela qual o homem se distingue dos animais e das outras coisas.

07 - A Escritura Sagrada também a constitui senhora sobre a terra, as aves, os peixes, o gado, ao dizer: "Dominai" (Gn 1.28).

08 - Isto é, que ela eja o sol e uma espécie de divindade destinada a
administrar estas coisas nesta vida.

09 - Deus também não privou a razão desta majestade depois da queda de Adão, pelo contrário, a confirmou.

10 - Contudo a própria razão não sabe a priori, mas somente a posteriori, que ela é tal majestade. (A priori refere-se a um conhecimento, uma afirmação, uma verdade, etc., anteriores à experiência. A Posteriori refere-se a um conhecimento, uma afirmação, uma verdade, etc., provenientes da experiência ).

11 - Se, pois, se comparar a filosofia ou a própria razão com a teologia, ficará evidente que não sabemos quase nada sobre o homem.

12 - Uma vez que, ao que parece, nem mesmo enxergamos suficientemente sua causa material.

13 - Porque a filosofia não conhece com certeza a causa eficiente, e da mesma forma (desconhece) a causa final.

14 - Porque ela conhece como única causa final a paz desta vida, ignorando ser Deus, o Criador, a causa eficiente.

15 - Contudo, sobre a causa formal, que chamam de alma, nunca houve e nunca haverá consenso entre os filósofos.

16 - Porque quando Aristóteles (Tratado da alma, II, 4) a define como primeira manifestação (No original: actum (=ato) do corpo com poder de viver, ele quis também iludir leitores e ouvintes.

17 - Nem há esperança de que o homem, no tocante a essa parte principal, possa conhecer-se a si próprio, o que ele seja, enquanto não ver a si mesmo em sua origem, que é Deus.

18 - E, o que é lamentável, ele não tem domínio pleno e inequívoco nem de seu querer e saber, mas nisso está sujeito ao acaso e à vaidade.

19 - Mas assim como é esta vida, assim também são a definição e o conhecimento a respeito do homem, isto é, precários, enganosos e demasiado materiais.

20 - Contudo a partir da plenitude de sua sabedoria, a teologia define o homem de maneira total e perfeita.

21 - A saber, que o homem é criatura de Deus constituída de corpo e alma viva, feita no princípio à semelhança de Deus, sem pecado, a fim de se procriar e de dominar sobre as coisas, sem nunca morrer.

22 - Mas que, após a queda de Adão, (a criatura) ficou sujeita ao poder do diabo, ao pecado e à morte, um mal duplo, insuperável para as suas forças, e eterno.

23 - E disso não pode ser libertada e receber a vida eterna a não ser pelo Filho de Deus Jesus Cristo ( se nEle crê).

24 - Isto posto, e como a mais linda e excelente de todas as coisas, qual seja a razão após o pecado, está entregue ao poder do diabo, mesmo assim deve-se concluir:

25 - Que o homem todo e todo o homem, seja rei, senhor, servo, sábio, justo e dotado ricamente com quaisquer bem desta vida, contudo é e permanece réu de pecado e morte, sob a opressão do diabo.

26 - Por isso aqueles que dizem que a natureza depois da queda permaneceu íntegra fazem filosofia ímpia em oposição à teologia.

27 - O mesmo vale para aqueles que dizem que o homem pode tornar-se merecedor da graça de Deus e da vida bastando fazer o que está nele.

28 - Da mesma forma, os que invocam Aristóteles ( que não sabe nada do homem teológico) afirmando que a razão aspira às melhores coisas,

29 - também, que esteja no homem uma luz do rosto de Deus, projetada sobre nós, isto é, o livre arbítrio, para tornar correta a decisão e boa a vontade;

30 - de igual modo, que esteja no poder do homem escolher o bem e o mal, ou vida e morte, etc.,

31 - todos estes não entendem o que é o homem, nem mesmo sabem do que estão falando.

32 - Paulo diz em Rm 3.28: "Julgamos que o homem é justificado pela fé, independente das obras", e assim resume brevemente a definição do homem, dizendo: "O homem é justificado pela fé".

33 - Certamente quem diz que o homem precisa ser justificado declara que é pecador (No original consta peccatorum - dos pecadores, quando decerto deveria ser peccatorem)e injusto, e assim afirma ser ele culpado perante Deus, precisando ser salvo por graça.

34 - E pressupõe o homem em termos indefinidos, isto é, universais, para concluir que o mundo todo, ou tudo o que é chamado de homem, está sob o pecado.

35 - Por isso o homem desta vida é mera matéria de Deus para a futura forma de vida.

36 - Assim como toda criatura, agora sujeita a vaidade (Cf. Rm 8.20), para Deus é matéria para sua futura forma gloriosa.

37 - E como no princípio a terra e o céu foram completadas após seis dias em relação à forma, isto é, sua matéria,

38 - assim é o homem nesta vida, (matéria) para sua futura forma, quando a imagem de Deus será cosntituída e tornada perfeita.

39 - Enquanto isso o homem está em pecados e diariamente ou é justificado ou se torna impuro.

40 - Por isso Paulo nem mesmo se digna de chamar de mundo esta âmbito da razão, mas sim o cha de "aparência deste mundo" (1Co 7.31).

Sábado, Julho 08, 2006

Debate do Reverando Dr. Martinho Lutero Acerca do Homem (1536) - Parte 1 - Introdução.

Durante 37 anos, aproximadamente, Martinho Lutero exerceu a profissão de professor universitário. Desde 1508 lecionou nas universidades de Erfurt e Wittenberg como uma espécie de professor assistente. Em 1511, sua ordem religiosa, a dos eremitas agostinianos, transferiu-o definitivamente para Wittenberg (Em setembro). Em 18 e 19 de outubro de 1512, a Faculdade de Teologia da universidade daquela cidade outorgou-lhe o título de doutor em Teologia. Em 21 de outubro foi aceito com catrdrático no Corpo Docente da Faculdade de Teologia. Assumiu a cadeira de Bíblia. Desde 1513 até o fim de sua vida ( 18 de fevereiro de 1546) Dedicou-se a interpretação da Sagrada Escritura.
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A universidade, como instituição de ensino e estudo em nível científico, é uma criação da Idade Média européia. A Universidade de Wittenberg pertenceu ao segundo grupo de universidades fundadas no Sacro Império Romano-Germânico, entre 1456 e 1506. Foi criada em 1502, com 15 cátedras, por Frederico III, o Sábio (1463-1525), príncipe eleitor da Saxônia (desde 1486). O imperador Maximiliano I (1459-1519 - rei desde 1486, imperador desde 1508) concedeu-lhe os privilégios que as universidades mais antigas possaíam. Em 1507, a fundação foi confirmada pelo papa Júlio II (1503 - 1513).
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Em Wittenberg, Lutero promoveu, primeiramente, uma profunda reforma universitária. Quebrou o predomínio da filosofia de Aristóteles, da teologia escolástica e do Direito Canônico. Colocou a Bíblia no centro do estudo teológico, incentivando também o estudo das línguas bíblicas (hebraico e grego) e do latim. Wittenberg tornou-se a universidade mais famosa da época. Atraiu, às vezes, mais de 2.000 estudantes, entre eles cerda de 15% estrangeiros. A cidade tinha uma população de apenas 3.500 pessoas.
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A escolástica, a ciência universitária medieval, desenvolveu duas formas de ensino e aprendizagem: a preleção (em latim: lectio), como explicação de textos, e o debate (em latim: desputatio). Nos debates eram discutidas, com argumentação e contra-argumentação, questões levantadas pelo professor ou pelos alunos, sob a direção do professor. A este cabia a decisão conclusiva, que precisava ser fundamentada. No fim da Idade Média, os debates acadêmicos tornaram-se, às vezes, atos solenes, com características de exames, sobretudo na outroga de um título acadêmico.
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Desde 1525, a Universidade de Wittenberg não realizou mais os atos solenes de outorga de título de doutor em Teologia nem os respectivos debates. A base jurídica destes atos, o privilégio concedido à universidade pelo papa, havia se tornado duvidosa. Mas entre os evangélicos em geral havia poucos teólogos com o título de doutor. Por isso a faculdade de Teologia da Universidade de Wittenberg reiniciou, em 1533, a prática de outroga deste título, em atos solenes, precedidos pelos respectivos debates. Baseou-se na autoridade apostólica da doutrina cristã autêntica e no privilégio concidedo pelo imperador. O título atestava ao portador sua qualificação teológica para cargos de liderança na igreja.
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Desde 1535, a Faculdade de Teologia realizou regularmente debates acadêmicos. Em parte aconteciam nos processos de outorga do título de doutro. Às vezes o próprio Lutero formulava as teses a serem debatidas e dava, no final, as respostas conclusivas. Outros debates eram exercício para os estudantes a serem realizados a cada 3 meses. Em 1536, o príncipe eletor da Saxônia, João Frederico, o Magnânimo (1503 - 1554 - príncipe eleitor de 1532 a 1547), tornou tais debates obrigatórios para todas as faculdades da Universidade de Wittenberg. As teses eram formuladas pelos professores, alternadamente.
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Lutero participou, ao todo, de 13 debates por ocasião da outroga de título de doutor e de 14 debates-exercício. Desde 1540 restringiu sua participação ao primeiro tipo de debates. Já no início de suas atividades na universidade havia usado a forma literária de teses para apresentar suas críticas ou esclarecer questões controvertidas. Através de teses desencadeou o movimento da Reforma. Suas teses constituem um elemento importante de sua obra como teólogo. As teses dos anos 30 e 40 são testemunhos valiosos de sua teologia em sua forma madura. Dos debates propriamente ditos não existem atas autênticas. somente há versões revisadas dos respectivos apontamentos. Estes textos naturalmente não tem o mesmo quilate das teses de Lutero, mas deixam transparecer como se discutiam questões teológicas naquela época.
O "Debate acerda do homem", realizado em 14 de janeiro de 1536, aborda a antropologia. Lutero parte da definição filosófica do ser humano: sua faculdade principal é a razão. Pela razão, o ser humano distingue-se do animal. Mas esta definição fica limitada à vida terrestre; isto é, ao âmbito da imanência. Não consegue captar a verdadeira natureza do ser humano. Somente a teologia define corretamente o que o ser humano realmente é: criatura de Deus, sujeira ao domínio do diabo, do pecado e da morte, mas liberta pela fé em Cristo. Lutero resume sua antropologia na frase do apóstolo Paulo em Rm 3.28: O ser humano é justificado pela fé. O ser humano, pois, é entendito a partir de seu relacionamento com Deus: diante dele é pecador, mas destinado a ser justificado. Depende inteira e exclusivamente da de Deus. O sentido da existência humana é, para Lutero, a justificação por graça mediante a fé.
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Do "Debate Acerca do Homem" temos, em latim, as teses de Lutero e um fragmento dos apontamentos sobre o debate.
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Não perca o próximo artigo - As 40 teses "Acerda do Homem"

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Lutero ainda Fala.

Uma das principais figuras da História da Interpretação Bíblica é Martinho Lutero, cujos princípios de interpretação deram o ímpeto necessário à Reforma Protestante do século dezesseis. A hermenêutica de Lutero redimiu as Escrituras do cativeiro da exegese medieval e do controle da Igreja Católica Romana. Qualquer estudioso familiarizado com as obras de Lutero, particularmente com os seus comentários, percebe que o método gramático-histórico moderno de interpretação está, muitas vezes, apenas aperfeiçoando a obra do grande reformador. O objetivo do presente artigo é avaliar a principal contribuição Lutero para a interpretação bíblica, ou seja, a busca da intenção do autor humano das Escrituras como sendo o sentido pretendido pelo Espírito Santo, e portanto, o único sentido verdadeiro do texto. Creio que uma nova apreciação deste princípio simples de interpretação bíblica poderá ajudar a igreja evangélica brasileira a sair das dificuldades doutrinárias em que se encontra no momento.

A Intenção do Autor Humano como o Único Sentido Verdadeiro do Texto
É a minha convicção de que grande parte da confusão hermenêutica em que se encontra a Igreja hoje deve-se ao abandono deste princípio simples de exegese, de que cada passagem das Escrituras tem apenas um único sentido: aquele pretendido pelo autor humano sob a inspiração do Espírito Santo. Procuraremos ver como Lutero desenvolveu na prática as implicações desta regra.
Nossa pesquisa se concentrará no comentário em Gálatas que Lutero publicou em 1535. Na realidade, esse foi o segundo comentário que ele publicou em Gálatas. O primeiro data de 1519 , e segundo alguns estudiosos, era superior ao de 1535, pois se atém mais ao sentido original do texto bíblico. De qualquer forma, "Gálatas, 1535" representa a hermenêutica mais madura do reformador. Nele encontramos um sumário do que Lutero pensava acerca da interpretação das Escrituras, numa passagem onde ele ataca os exegetas medievais e defensores do papado, com sua característica virulência:
O que eles [os sofistas] deveriam fazer é vir ao texto vazios, derivar suas idéias da Escritura Sagrada, e então prestar
atenção cuidadosa às palavras, comparar o que precede com o que vem em seguida, e se esforçar para agarrar o sentido autêntico de uma passagem em particular, em vez de ler as suas próprias noções nas palavras e passagens da Escritura, que eles geralmente arrancam do seu contexto.
Obviamente, se perguntado, Lutero acrescentaria mais algumas coisas a este sumário. Suas palavras acima, porém, revelam claramente que, para o reformador, o alvo principal do intérprete bíblico é determinar o sentido original de uma passagem, e isto através de exegese cuidadosa. Em "Gálatas, 1535" Lutero concentra-se insistentemente em determinar a intenção de Paulo em cada passagem. Por exemplo, ele inicia sua análise de Gálatas 2 declarando qual o propósito de Paulo ao escrever aquela porção da carta, e parte para uma crítica a Jerônimo, o qual, segundo Lutero "...nem toca no ponto verdadeiro da passagem, pois não leva em conta a intenção ou propósito de Paulo." Mais adiante, comentando Gálatas 1.3, Lutero volta a criticar Jerônimo, afirmando que o mesmo deixou passar inteiramente desapercebido o ponto principal do versículo, por ter falhado em captar a intenção de Paulo ali.

O contexto

Lutero procura determinar a intenção original de Paulo em uma determinada passagem de diversas maneiras. Em primeiro lugar, ele procura ser sensível ao contexto imediato da passagem a ser interpretada . Para ele, o sentido das palavras deve ser encontrado, primeiramente, à luz do assunto em pauta na seção maior onde o texto está inserido. Assim, "carne" em Gálatas 3.3 não pode ser interpretado como paixões sexuais, como alguns exegetas medievais faziam, pois, segundo ele, "nesta passagem, Paulo não está discutindo concupiscência sexual ou outros desejos da carne ... ele está discutindo sobre perdão de pecados." Comentando Gálatas 1.17 Lutero afirma que Jerônimo poderia ter facilmente resolvido a questão do que Paulo fez durante os três anos em que passou na Arábia, se prestasse cuidadosa atenção às próprias palavras de Paulo.
Em segundo lugar, Lutero procura entender o que Paulo está dizendo em Gálatas à luz do restante do Corpus Paulinus . Não é de se estranhar, pois, que seu comentário esteja cheio de referências a outras cartas do apóstolo, principalmente as demais Hauptbriefe ("cartas principais": Romanos, 1 e 2 Coríntios). Por exemplo, ao explicar Gálatas 2.3, que trata da quase circuncisão de Tito, Lutero apela para 1 Coríntios 7.18, onde Paulo declara sua prática missionária de amoldar-se às necessidades dos que o ouvem. Mais adiante, examinando o significado de Gálatas 3.19 ele acrescenta: "A passagem em 2 Coríntios 3.17-18 sobre a face velada de Moisés é pertinente aqui." Comentando Gálatas 3.1, "Ó gálatas insensatos," Lutero explica que a aparente rudeza de Paulo se explica pelo fato de que o apóstolo está simplesmente praticando o que ele ensina em 2 Timóteo 4.2, "prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende e exorta."
Em terceiro lugar, Lutero está alerta para entender o sentido pretendido por Paulo em uma passagem à luz do contexto mais amplo das demais Escrituras . Ele cita passagens de vinte e três livros do Antigo Testamento, especialmente de Gênesis, Deuteronômio, Salmos e Isaías. Ele usa o Velho Testamento como uma fonte abundante de evidências, exemplos, e exortações. Para ele, a analogia scripturae ("analogia das Escrituras") justifica o aplicar-se a Cristo "todas as maldições coletivas da Lei de Moisés," como Paulo faz em Gálatas 3.13, aplicando a Cristo a maldição de Deuteronômio 21.23. Lutero também cita passagens de quase todos os demais livros do Novo Testamento, especialmente os Evangelhos e Atos, à medida em que comenta Gálatas, verso por verso. Assim, ao analisar Gálatas 2.7-9, onde Paulo menciona que Deus lhe atribuiu e à Pedro diferentes ministérios, Lutero comprova as palavras de Paulo com exemplos destes diferentes ministérios (de Pedro aos judeus e de Paulo aos gentios) tirados de Atos, 1 Pedro e Colossenses.
Para Lutero, o método eficaz de explicar passagens da Escritura que seus oponentes usavam para justificar salvação pelas obras (como Daniel 4.27) era consultar "a gramática teológica," que para ele significava o ensino total das Escrituras sobre salvação. Um bom exemplo é sua explicação para Daniel 4.27, onde o profeta diz ao rei para "por termo" (renunciar, encerrar, acabar) aos seus pecados pela prática da justiça e da misericórdia. Lutero comenta, partindo do ensino total das Escrituras sobre a salvação pela fé, que "a gramática teológica demonstra que a expressão ‘por termo' nesta passagem não se refere à moralidade, mas à fé, e que fé está incluída na expressão ‘por termo.'

O estado de espírito de Paulo

Além de atentar cuidadosamente para o contexto literário de uma passagem, Lutero tenta também entender o estado de espírito em que Paulo se encontrava ao escrevê-la. Para ele, saber isso era uma ferramenta importante na interpretação da passagem. Assim, ao comentar Gálatas 1.1, ele observa o zelo e a paixão apostólicos que iam na alma de Paulo, ao escrever essa carta com o intuito de defender a justificação pela fé. Este estado de espirito, segundo Lutero, explica a profunda angústia mental do apóstolo refletida em 4.20-21, (18) e também por que em 2.6-9 Paulo "esqueceu-se da gramática grega e confundiu a estrutura da sentença." (19) Evidentemente devemos questionar até que ponto a língua grega comum na época de Paulo era gramaticalmente estruturada e rígida, antes de podermos falar em "confusão" gramatical feita pelo apóstolo. É bom ressalvar que, para Lutero, essas "confusões" gramaticais de Paulo eram perfeitamente compatíveis com a inspiração e na inerrância das Escrituras. O que desejo mostrar, entretanto, é a preocupação do reformador em entender Paulo, para assim chegar ao sentido verdadeiro da passagem.

A linguagem

Lutero também procura penetrar na intenção de Paulo examinando a linguagem do apóstolo ao escrever Gálatas. Assim, o reformador está sempre alerta para o estilo de Paulo, e com o propósito de esclarecer uma sentença, às vezes chama a atenção para as expressões hebraicas (hebraismos) usadas pelo apóstolo. Como exemplos, ele cita expressões como "ministro do pecado" (Gálatas 2.17), "a promessa do Espírito" (3.14), "me separou antes de eu nascer" (1.15), "o evangelho da circuncisão" (2.7), e Gálatas 2.16, pa=sa sa/rc , que segundo ele é "um hebraismo que peca contra a gramática".
Semelhantemente, Lutero está atento para as figuras de linguagem usadas por Paulo, como "sinédoque", "inversão retórica", "argumento do contrário", "antítese" e "elipse". O seu alvo é entender o sentido pretendido pelo apóstolo na passagem ao usar estas figuras. Assim, ele está também atento para a gramática e a sintaxe de Paulo. Na introdução do seu comentário, ele diz: "Num certo sentido, Paulo trata do tema desta carta em cada palavra. . . portanto, devemos prestar atenção em cada palavra, e não passar por elas de forma casual e superficial". Ao discutir a ênfase do pronome "nosso" em Gálatas 1.4, ele diz que o sentido da Escritura "...consiste na aplicação apropriada de pronomes..." Ele está consciente dos diferentes aspectos temporais dos verbos usados por Paulo, como por exemplo, o emprego das vozes ativa e passiva em Gálatas 3.3. Também se refere aos usos distintos do genitivo. Comentando a expressão "o Evangelho da incircuncisão" e "o Evangelho da circuncisão" (Gálatas 2.7), Lutero observa que a expressão é mais um hebraismo de Paulo, e conclui: "...em hebraico o caso genitivo é usado de várias formas, algumas vezes no sentido ativo, e em outras, no passivo; e isto tende freqüentemente a obscurecer o sentido. Há exemplos disto nas cartas de Paulo — na verdade, por todas as Escrituras". Como exemplos desta ambigüidade do genitivo em Paulo, ele menciona "fé de Jesus", e "o Evangelho de Deus".
Paráfrases
O método mais interessante que Lutero emprega para estabelecer o sentido genuíno de um texto é parafrasear o apóstolo Paulo. Esta prática está virtualmente ausente em seu primeiro comentário ("Gálatas, 1519"). No segundo, as inúmeras paráfrases são introduzidas por uma fórmula padrão, "é como se ele [Paulo] estivesse dizendo...", ou "ele [Paulo] diz...", ou ainda "é como se ele dissesse..." O seu uso de paráfrases é limitado pelo contexto literário, pelo contexto histórico, pela teologia de Paulo e pela analogia das Escrituras.
Lutero gosta de parafrasear especialmente as passagens mais difíceis de Paulo. Ele refaz a sentença com o objetivo de tornar claro, de uma forma bem vivida, aquilo que poderia ser ambíguo para o leitor comum. Comentando Gálatas 1.6, onde Paulo fala dos que pregam "outro Evangelho", Lutero escreve: "Paulo está falando de forma irônica, como se estivesse dizendo..." ( Ao lidar com a declaração "o qual me separou desde o ventre materno" (Gl 1.15) ele acrescenta, "Esta é uma expressão hebraica, é como se Paulo estivesse dizendo, ‘que me santificou, determinou e preparou'"
Numa paráfrase admirável de Gálatas 3.1 Lutero torna transparente o que Paulo quer dizer por "fascinou": "É como se ele [Paulo] dissesse aos gálatas, ‘o que está acontecendo com vocês é precisamente o que acontece com crianças, as quais as feiticeiras e bruxas atraem de forma fácil e rápida com seus encantamentos, um truque de Satanás'".

Fatores que controlavam a exegese de Lutero

Alguns fatores controlavam a determinação de Lutero em descobrir o sentido verdadeiro do que Paulo escreveu. Como temos mostrado, para Lutero este sentido consistia na intenção de Paulo ao verter as suas idéias em forma de epístolas.

A clareza das Escrituras

Primeiro, Lutero estava convencido de que o sentido de uma passagem das Escrituras é geralmente claro e evidente. É partindo deste pressuposto fundamental que ele rejeita a tese de Jerônimo, baseada em Gálatas 1.18, de que Paulo foi a Jerusalém para aprender o Evangelho da boca de Pedro. Lutero retruca dizendo "...Paulo afirma em palavras claras que foi a Jerusalém para ver Pedro [e não para aprender dele]". Semelhantemente, Lutero rejeita a interpretação de Gálatas 6.8, "semear na carne", feita pelos Encratitas (que ele considera como "bestas abomináveis, totalmente desprovidas de bom senso..."). Para eles, "semear na carne" refere-se ao casamento, mas para Lutero, "como qualquer pessoa equipada com um mínimo de bom senso pode ver, Paulo não está falando de casamento nesta passagem".
Isto não significa que Lutero estava exagerando a perspicuidade (clareza) da Escritura. Ele estava perfeitamente consciente das dificuldades envolvidas na interpretação bíblica . Um bom exemplo é quando ele comenta o relato que Paulo dá em Gálatas do tempo que passou na Arábia (Gl 1.17), e que é omitido na narrativa do livro de Atos. Analisando a aparente contradição, Lutero chega ao ponto de dizer, "as histórias nas Escrituras são geralmente concisas e confusas, e não podem ser harmonizadas perfeitamente, como por exemplo, os relatos de como Pedro negou a Jesus e as narrativas da paixão de Cristo, etc." Lutero percebe igualmente que existem às vezes uma certa imprecisão na linguagem do apóstolo Paulo. Comentando em 1.6 ele afirma, "Essa passagem não é tão clara ... pode ser interpretada de duas maneiras diferentes." Lutero reconhece que os autores humanos estão cercados de fraquezas e limitações. Para ele, a presença e a atividade do Espírito nos instrumentos humanos não significava a abolição destas limitações inerentes à humanidade. Assim, ele acredita que Paulo foi um pouco áspero com os gálatas ao censurá-los dizendo, "ó gálatas insensatos" (3.1). Para Lutero, a rudeza natural do apóstolo não havia ainda sido totalmente subjugada pela atividade e habitação do Espírito. Lutero também está consciente das muitas passagens difíceis nas Escrituras , que poderiam dar ocasião aos inimigos do Evangelho para levantar críticas contra a fé. Assim, comentando Gálatas 2.11, onde Paulo narra como resistiu a Pedro face a face, o reformador admite que esta passagem "tem dado a muitos — como Porfírio, Celso, Juliano, e outros — uma oportunidade de acusar a Paulo de soberba, pois atacou o chefe dos apóstolos na presença da Igreja".
Devemos observar que Lutero tenta consistentemente explicar as passagens difíceis e por vezes não muito claras na carta aos Gálatas apelando para a intenção de Paulo nessas passagens. De acordo com ele, pode-se harmonizar a narrativa da estada de Paulo na Arábia com a omissão da mesma em Atos, "...prestando-se atenção somente ao propósito e intenção de Paulo em seu relato". E ele fica ao lado de Agostinho na disputa com Jerônimo sobre o confronto entre Paulo e Pedro em Antioquia (Gl 2.11) porque acha que Jerônimo não entendeu o que estava em jogo com a atitude de Pedro, e assim perdeu de vista o ponto principal da passagem, fracassando em perceber a intenção de Paulo ao resistir a Pedro.
Talvez seja relevante mencionar, a esta altura, que Lutero estava convencido de estar atravessando um período especial na história da interpretação bíblica . Ele reconhecia, por um lado, que existiam pontos obscuros nas Escrituras, como o próprio apóstolo Pedro havia admitido em relação aos escritos de Paulo (2 Pedro 2.15-16). Por outro lado, o reformador estava convicto de que boa parte da obscuridade estava sendo iluminada em sua época, a época da Reforma protestante. Por exemplo, ao rejeitar a interpretação papista do termo "santos" usado por Jesus e pelos apóstolos, Lutero afirma que o verdadeiro sentido do termo era óbvio, "agora que a luz da verdade está brilhando..." Portanto, não é de se surpreender que nós o encontremos convencido de que está interpretando as Escrituras da única forma correta, "...com um espírito excessivamente maior e mais sensato (sem querer gloriar-me)" do que seus oponentes.

A necessidade da iluminação do Espírito Santo

O segundo fator que controlava a exegese de Lutero era sua persuasão de que somente debaixo da iluminação do Espírito alguém poderia alcançar o verdadeiro sentido do texto bíblico . Este conceito fazia parte da sua convicção de que o cristão tinha o direito de examinar as Escrituras por si, e era uma reação ao controle exercido até então pela Igreja Romana. Ele estava persuadido de que o Espírito Santo havia sido enviado à Igreja para revelar o Evangelho, a palavra divina. A certa altura do comentário em Gálatas ele se queixa da interpretação bíblica feita pelos líderes de movimentos religiosos populares e radicais de sua época, dizendo: "Por não terem o Espírito, eles ensinam o que querem, e o que as massas acham plausível". E aconselha aos que querem evitar esta armadilha: "...devotemo-nos ao estudo da Sagrada Escritura e à oração séria, para que não percamos a verdade do Evangelho."
Essa convicção de Lutero tem papel importante em sua busca da intenção de Paulo como sendo o único sentido aceitável do que ele escreveu em Gálatas. Partindo do fato de que o Espírito Santo guiou os escritores das Escrituras, Lutero freqüentemente procura determinar a intenção do Espírito Santo , em uma determinada passagem, exatamente como procura determinar a intenção de Paulo. Para Lutero, ambas se confundem numa só, que é o sentido genuíno do texto. Comentando em Gálatas 4.30, "Lança fora a escrava e a seu filho", o reformador diz: "Devemos notar que aqui o Espírito Santo insulta os que são da lei e das obras chamando-os de ‘filhos da escrava'". E o que é ainda mais interessante, Lutero parafraseia o próprio Espírito Santo, como faz freqüentemente com Paulo. Várias vezes encontramos em seu comentário a expressão "É como se ele [o Espírito Santo] estivesse dizendo..." Similarmente, quando interpreta 3.12, ele critica uma referência à "fé infusa" ( fides caritates formata ) feita por um comentarista medieval dizendo: "O Espírito Santo sabe falar. Se é como os ímpios sofistas acreditam, o Espírito poderia ter dito: ‘O justo viverá por uma fé infusa' ( fides formata ). Mas ele omite intencionalmente a expressão e diz simplesmente: ‘O justo viverá pela fé'".
Lutero chega ao ponto de atribuir ao Espírito Santo o que ele considera como imprecisões gramaticais da parte de Paulo. Comentando Gálatas 2.6, onde Paulo omite algumas palavras numa sentença, ele afirma: "é perdoável quando o Espírito Santo, falando através de Paulo, cometa alguns pequenos erros de gramática". E mais adiante ele justifica a falta aparente de ordem e método de Paulo em 3.1 dizendo "o apóstolo está seguindo uma ordem esplêndida no Espírito". Como já ressaltamos acima, é bastante discutível se podemos falar de erros gramaticais nos textos bíblicos. De qualquer forma, os exemplos acima servem para mostrar como, para Lutero, a intenção do Espírito Santo e a intenção do autor humano estavam intimamente ligadas.

Interação com outros estudiosos e suas obras

O terceiro fator era a consulta contínua que Lutero fazia de obras escritas por outros autores. A importância que Lutero atribui à iluminação do Espírito para o correto entendimento das Escrituras é evidente. Deveríamos acrescentar de imediato que ele não despreza os escritos e as opiniões de outros estudiosos e comentaristas. Ao contrário de alguns autores modernos que reivindicam entender as Escrituras através de revelações do Espírito, e que prestam pouca ou nenhuma atenção ao que o Espírito mostrou aos outros, Lutero entendia que podia aprender também com o que outros cristãos, sob a direção do Espírito, haviam aprendido das Escrituras. Não somente isto, Lutero consultava também obras de autores não cristãos. O seu profundo conhecimento da literatura da época transparece claramente em seu "Gálatas, 1535". Ele cita escritores gregos como Virgílio, Esopo, Aristides, Aristóteles, Cícero, Demóstenes, Ovídio, Plínio e Platão, para mencionar uns poucos. Ele demonstra familiaridade também com as obras de Eusébio, Suetônio, Quintiniano, Justino e Porfírio. Conhece também os escritos de alguns dos Pais da Igreja como Ambrósio, Orígenes, Cipriano, Ireneu e Jerônimo. Ele menciona também as obras de comentaristas medievais como Gregório de Nissa, Pedro Lombardo, Occam, Scotus, Tomás de Aquino e Bernardo de Claraval. E conhece também até mesmo as obras de Erasmo, a quem critica continuamente.
Lutero não somente cita esses autores — ele faz uma avaliação crítica do que escreveram. Por exemplo, ele rejeita a interpretação de Orígenes e de Jerônimo de que, em Gálatas 2.15, Paulo está dizendo que as cerimônias da Lei se tornaram fatais a partir da vinda de Cristo. Mais adiante Lutero volta a criticá-los em seu comentário afirmando que ambos são os responsáveis por uma interpretação errônea de Gálatas 2.21, pois entenderam a "Lei" nesta passagem como sendo "Lei Cerimonial", uma interpretação que os sofistas, os escolásticos e Erasmo seguiam. Lutero considera que Orígenes e Jerônimo, nesta passagem, são "mestres extremamente perigosos". E em outro lugar, ele acusa Jerônimo e seus seguidores de "lacerar miseravelmente esta [Gl 3.13] passagem."
Lutero é um crítico implacável do Escolasticismo Medieval . Freqüentemente em seus comentários e escritos ele ataca suas interpretações das Escrituras. Ele critica a interpretação de Scotus e Occam sobre a justificação pelas obras, e após uma longa refutação das idéias desses escritores, Lutero apelida a doutrina destes de "um sonho dos escolásticos". Mais adiante, adverte contra "o erro perigoso dos teólogos escolásticos", que ensinam que o homem recebe perdão dos pecados pelas obras que precedem a graça. Lutero também rejeita as glosas produzidas por estes estudiosos. Segundo Farrar, Lutero aprendeu a sentir o mais profundo desprezo pelas glosas da sua época." Assim, Lutero rejeita uma glosa feita em Gálatas 2.16 a qual ensina que a fé justifica apenas quando o amor e as boas obras são adicionadas. "Com essa glosa perniciosa eles [os escolásticos] obscureceram e distorceram os melhores textos deste tipo", ele se queixa. Estas glosas, continua Lutero, "devem ser evitadas como veneno infernal". "Que os sofistas se enforquem com suas glosas malignas e ímpias", troveja Lutero irritado, ao observar que a glosa de Gálatas 3.11 deturpa o sentido óbvio da passagem.

Rejeição Consciente do Método Alegórico

Para sermos justos, devemos observar que algumas das principais características da hermenêutica de Lutero já haviam sido antecipadas por alguns exegetas medievais, até mesmo sua busca da intenção do autor como o sentido legítimo do texto. Embora a interpretação alegórica propagada por Orígenes no período patrístico tenha dominado a hermenêutica da Igreja na Idade Média, havia quem defendesse uma interpretação mais próxima do sentido literal dos textos bíblicos. Na realidade, este tipo de interpretação recebeu um grande ímpeto durante o século XII. Neste período vários estudiosos foram influenciados pela erudição judaica e especialmente pelas obras de Rashi, um influente estudioso judeu que defendia uma interpretação das Escrituras que fosse baseada no sentido gramático e histórico das frases — algo bem diferente das interpretações dos rabinos da época.
Além das obras de Rashi, outro fator veio dar ímpeto a uma apreciação maior por interpretações menos alegóricas, que foi o surgimento das ordens monásticas mendicantes. Esses monges, em seu trabalho de evangelização, liam os Evangelhos de forma direta, simples e literal, como os da ordem fundada por Francisco de Assis. Além disto, o trabalho dos monges estudiosos Vitorianos, da escola da catedral da Abadia de São Hugo, trouxe ímpeto ainda maior ao movimento. No século XIII Tomás de Aquino, em que pese sua predileção pelo método alegórico, destacou o valor do sentido literal das Escrituras. Foi no século XIV que este ímpeto atingiu seu ápice com Nicolau de Lira, cuja vasta erudição hebraica, profundamente influenciada pelas obras de Rashi, produziu uma hermenêutica preocupada com o sentido literal do texto bíblico. Segundo Farrar, "...uma ilha verdejante em meio às ondas mortas de uma exegese que se havia tornado lugar comum." Por essa época, a separação entre os estudos bíblicos e o dogma teológico da Igreja já era demandado pelo influente Abelardo, na França.
Entretanto, como observa Moisés Silva, em que pese a obra destes eruditos, "...a renovada apreciação pelo sensus literaris na Idade Média não representou um abandono da exegese alegórica". A teoria introduzida por Orígenes, que cada passagem da Escritura tem vários sentidos, começando do literal até ao mais profundo, o espiritual, dominou de forma quase absoluta a exegese medieval. O que marcou a hermenêutica de Lutero como radicalmente diferente da hermenêutica medieval foi seu propósito definido de romper com este método alegórico.

Alegorias na Escritura

Lutero reconhecia que havia alegorias na Escritura . Em seu comentário em Gálatas ele detecta a presença de alegorias usadas por Paulo: "por quem de novo sinto as dores de parto" (4.19); "testamento" (3.14-17); "um pouco de fermento leveda toda a massa" (5.9), entre outras. Naturalmente, Lutero está ciente da alegoria de Sara e Hagar em 4.21-27, onde o apóstolo vê nas duas mulheres dois sistemas de salvação incompatíveis e mutuamente exclusivos. Ele justifica Paulo dizendo: “o povo comum é profundamente tocado por alegorias e parábolas ... as quais trazem as coisas de forma clara diante dos olhos das pessoas simples, e por este motivo, têm um efeito profundo na mente...”

Rejeição do sentido quádruplo da Escritura

Entretanto, em que pese esse endôsso do uso de alegorias, Lutero rejeitou de forma muito clara o estilo de interpretação alegórico usado pelos escolásticos medievais, e em especial, a idéia de que cada passagem da Escritura tinha quatro sentidos diferentes: (1) o literal , que era o sentido evidente da passagem; (2) o sentido moral , relacionado com a conduta humana; (3) o sentido alegórico , que era a verdadeira doutrina do texto; (4) e o sentido anagógico , que era uma referência à coisas celestiais. Lutero julgava que por usar este método os escolásticos "...interpretam erroneamente quase cada palavra da Escritura ... dividem cada passagem em muitos sentidos e assim privam-se de poder instruir de forma certa a consciência humana."
Para Lutero, alegorias têm um valor limitado; são mais como quadros ou ilustrações, e não proporcionam demonstrações teológicas sólidas. Assim, a alegoria de Sara e Hagar não teria qualquer valor se antes Paulo não tivesse demonstrado com argumentos sólidos a justiça pela fé, sem as obras da lei. Alegorias devem ser fundamentadas no alicerce seguro da doutrina bíblica, da mesma forma que um quadro dependura-se na parede de uma casa solidamente construída. Para Lutero, alegorias devem ser controladas pela teologia e pelo bom senso: "se alguém não tiver um conhecimento perfeito da doutrina cristã, não poderá apresentar alegorias de forma eficaz." Partindo deste princípio, ele rejeita as alegorias de Orígenes e de Jerônimo: "Estes dois merecem ser criticados, pois fizeram muitas alegorias inadequadas e desastradas de passagens simples das Escrituras, cujos sentidos nada tinham de alegórico."

As alegorias de Lutero

Apesar de tudo, Lutero não conseguiu se livrar totalmente da influência do método alegórico de interpretação. Algumas vezes o encontramos dando um sentido ao texto que vai além do sentido gramático-histórico, como por exemplo, ao interpretar Gálatas 3.19: "Podemos entender a duração do período da Lei literalmente ou espiritualmente ... No sentido espiritual, a Lei só pode governar a consciência até o tempo da chegada ali do descendente abençoado de Abraão." E interpretando 3.23, "antes que viesse a fé estávamos sob a tutela da lei, e nela encerrados, para essa fé que de futuro haveria de revelar-se", Lutero comenta: "...você deve aplicar [esta passagem] não somente ao tempo, mas também às emoções; pois o que ocorreu historicamente e temporalmente quando Cristo veio ... acontece individualmente e espiritualmente todo dia com cada cristão..."
É necessário estarmos atentos para o fato de que em "Gálatas, 1535" Lutero tem uma atitude muito mais negativa para com alegorias do que em "Gálatas, 1519". Neste último, ele fala bem da teoria dos quatro sentidos do texto: "Estas interpretações adicionam um ornamento extra ao sentido legítimo e principal, de forma que um certo tópico fica mais ricamente adornado por elas." Lutero não as desaprova, embora reconheça que um sistema alegórico de interpretação "não é suficientemente apoiado pela autoridade das Escrituras."

Alegoria e aplicação

Um exame mais de perto das alegorias de Lutero revela que ele lança mão deste tipo de interpretação quando aplica uma passagem a questões práticas relacionadas com a situação de seus leitores . Lutero era um homem da sua época, e mesmo que tivesse como alvo hermenêutico interpretar as Escrituras sem os pressupostos do seu tempo, seu contexto histórico e social teve um papel decisivo em sua exegese, especialmente em sua controvérsia com a Igreja Católica Romana, os Anabatistas e outras seitas. Algumas considerações são necessárias neste ponto:
a) Lutero foi essencialmente um pregador . Ele interpretava as Escrituras com vistas a aplicar a mensagem do texto sagrado à sua própria situação, e à dos seus ouvintes. Este elemento pastoral sempre era decisivo quando ele estava diante de duas interpretações plausíveis de uma mesma passagem. Por exemplo, interpretando Gálatas 1.6 diz: "A interpretação que diz que é o Pai quem nos chama para a graça do Seu Filho é boa; mas a que diz que é Cristo, é mais agradável, e se presta melhor para confortar consciências atribuladas."
b) O modus operandi das aplicações de Lutero é o que podemos chamar de congenialidade de contextos históricos . Lutero abertamente identificava o papa, os papistas, os escolásticos, sofistas e as seitas como um todo, com os judaizantes que perseguiram o apóstolo Paulo no século I, e contra quem ele havia escrito a carta aos Gálatas. O seu próprio confronto com os intérpretes católico-romanos e Anabatistas era, para Lutero, muito similar ao conflito de Paulo com os defensores das obras da lei para salvação (circuncisão, calendário religioso, e regras alimentares do Judaísmo). Tanto no caso de Paulo quanto no seu próprio, o mesmo princípio estava em jogo, ou seja, a doutrina crucial da justificação pela fé somente, em oposição à justificação pelas obras da Lei. Portanto, não é surpresa encontrar Lutero afirmando em seu comentário a Gálatas que o papa é o anti-cristo, o qual, à semelhança dos judaizantes da época de Paulo, "...diz claramente que a Lei e a graça são duas coisas diferentes, mas na sua prática ensina exatamente o contrário". Os papistas são rapidamente identificados por Lutero como sendo os falsos mestres de Gálatas 2.18, "...destruidores do reino de Cristo e edificadores do reino do diabo, do pecado, da ira de Deus, e da morte eterna..." Os Anabatistas, Münzer, e até o reformador Zwinglio, são denunciados abertamente como tendo sido enfeitiçados pelo diabo, exatamente como os gálatas o foram (Gl 3.1).
c) Uma outra consideração é pertinente neste ponto. O método costumeiro de Lutero de fazer aplicações práticas de uma passagem bíblica é, primeiro, determinar o sentido genuíno do texto, que geralmente é o literal, gramático-histórico. Segundo, Lutero descobre a "doutrina" ou o princípio ensinado naquela passagem. E terceiro, ele aplica este princípio a circunstâncias historicamente similares de seus dias, como se percebe facilmente de sua aplicação de Gálatas 1.6:
...qualquer um que ensine salvação pelas obras e justificação pela Lei perturba a Igreja e as consciências. Quem teria acreditado que o papa, cardeais, bispos, monges e toda aquela ‘sinagoga de Satanás' ... são perturbadores das consciências dos homens? Na verdade, eles são muito piores do que aqueles falsos apóstolos da época de Paulo...
E comentando os versos seguintes, onde Paulo amaldiçoa todos (mesmo anjos) que ensinam outro Evangelho (3.8-9), Lutero estabelece o princípio de que um cristão pode amaldiçoar os falsos mestres. E aplica este princípio à sua época, considerando anátemas todas as doutrinas contrárias ao ensino da salvação pela graça: "Com Paulo, portanto, pronunciamos corajosa e ousadamente uma maldição sobre toda doutrina que não concorda com a nossa."

Avaliação da Exegese Gramático-Histórica de Lutero

Talvez a melhor maneira de avaliarmos a importância e a influência do sistema interpretativo de Lutero seja reconhecer o seu impacto na História da Interpretação que se seguiu à Reforma. A interpretação bíblica feita por estudiosos, comentaristas, exegetas e pregadores reformados conservadores, desde Lutero até hoje, tem sido controlada pelos princípios gerais de exegese originados com o reformador. Após a Reforma, um tipo de escolasticismo dogmático passou a dominar a exegese reformada e luterana. No período subseqüente, muitos estudiosos começaram a criticar de forma devastadora esse controle do dogmatismo sobre a exegese bíblica.
No século dezoito o alemão H.A.W. Meyer inaugurou o que se chama "exegese filológica", onde cada palavra do texto original é dissecada, como uma cobaia no laboratório! O texto é submetido a uma análise meticulosa, palavra por palavra, e seu sentido teológico exato determinado à luz do contexto histórico, lingüístico, e cultural. Através deste exame detalhado e meticuloso do texto bíblico, os comentaristas procuram determinar a intenção de Paulo, a qual, dentro do sistema gramático-histórico, é o único sentido legítimo de uma passagem. Com o surgimento de edições dos textos bíblicos originais com aparatos críticos cada vez mais sofisticados, não somente o texto, mas as variantes mais importantes passaram a ser também analisadas e interpretadas. Esta é a abordagem que encontramos na maioria dos comentários críticos do Antigo e Novo Testamentos do século passado e deste século. Apesar dos pressupostos racionalistas de muitos comentaristas e estudiosos, a ênfase neste período à intenção do autor reflete a influência da exegese de Lutero.
Certamente a exegese moderna tem avançado além de Lutero, através das ferramentas da crítica textual, da filologia, e da lingüística — ferramentas que não estavam disponíveis ao grande reformador. E num certo sentido, tem levado o alvo de Lutero ainda mais longe que ele; pois enquanto Lutero aqui e acolá se deleitava em alegorizar algumas passagens, o estudioso moderno envolvido em interpretação bíblica gramático-histórica é mais comprometido com o sentido literal do texto bíblico. E, neste sentido, é mais como Calvino. Basta que se contrastem as interpretações de Lutero e Calvino do Salmo 8.
Finalmente, existe a tentação de atribuirmos a Lutero a tendência moderna que existe em alguns círculos eruditos de uma nova apreciação pelo sentido "espiritual" de uma passagem, tendência esta inaugurada por Schleiermacher e desenvolvida pela "nova hermenêutica." Mas devemos certamente resistir a esta tentação. Lutero não reconheceria como sua filha legítima uma hermenêutica que procura o significado de um texto na mente da pessoa que o lê.

Podemos Aprender com Lutero?

Como afirmamos no início deste artigo, a crise doutrinária que aflige a igreja evangélica brasileira nasce de uma hermenêutica defeituosa, de um sistema de interpretação que, à semelhança dos tempos antes da Reforma, procura sentidos no texto inspirado que vão além daquele pretendido pelo autor bíblico. Essa alegorização das Escrituras feita nos púlpitos de muitas igrejas evangélicas brasileiras tem contribuído para a disseminação de inúmeros erros doutrinários. À semelhança do período medieval, quando este tipo de interpretação serviu de ferramenta para legitimar biblicamente doutrinas católicas posteriormente rejeitadas pelos reformadores, a hermenêutica da alegoria tem servido no Brasil evangélico como suporte para as doutrinas as mais estranhas. As igrejas de libertação a têm utilizado para a formação de práticas como correntes de oração do tipo "trombeta de Jericó", "cajado de Moisés", e para a introdução de um "fetichismo" cristão, onde um elenco interminável de objetos — desde fitinhas roxas até copos d'água — são usados como emblemas da fé. No auge do "dente de ouro", pregadores evangélicos procuravam justificar o fenômeno a partir de textos bíblicos onde a palavra "ouro" ou "boca" estivesse presente. O "urro sagrado" (praticado em igrejas relacionadas com o movimento da "bênção de Toronto" e da "gargalhada santa") é defendido com uma alegorização de passagens bíblicas onde Deus é representado como sendo um leão.
Em algumas situações, o princípio extraído alegoricamente do texto não chega a ser um erro doutrinário. É o caso do pregador mencionado no início deste ensaio, que extraiu à força da narrativa do desmamamento de Isaque o princípio bíblico correto de que devemos todos crescer e amadurecer na fé. Foi uma mensagem certa em um texto errado. Mas, a porta fica aberta para a infiltração do erro religioso, pois neste tipo de interpretação, o sentido do texto bíblico é deixado de lado, e o povo fica sem receber o genuíno leite espiritual da Palavra. Alimenta-se apenas das idéias criativas e da linguagem alegórica destes pregadores. Creio que o retorno a uma exegese cuidadosa do texto bíblico, à luz dos contextos históricos, da gramática e da sintaxe das línguas originais, produziria pregação expositiva das Escrituras, através da qual a igreja seria instruída, edificada, confortada e corrigida pela Palavra de Deus.
Ao mesmo tempo, é preciso que se esclareça que este artigo não está defendendo que somente uma elite de eruditos, familiarizados com as línguas originais das Escrituras e com o ambiente religioso, social, histórico e político da Antigüidade, pode descobrir o verdadeiro sentido de uma passagem bíblica. Ao meu ver, na grande maioria dos casos, este sentido é evidente e claro nas próprias traduções para as línguas modernas, e está disponível a todo cristão genuíno que deseja se conformar com o sentido original, direto, e simples da passagem.
Finalmente, acredito que toda aplicação das Escrituras para nossos dias (como ao final de um sermão) envolve uma certa medida de alegorização ou "espiritualização". Isto é inevitável, pois a aplicação exige que transponhamos a verdade bíblica para nossa própria situação. Mas mesmo aqui, devemos aprender com Lutero a controlar nossa aplicação pelo sentido gramático-histórico da passagem.

Rev. Augustus Nicodemus Lopes

Sexta-feira, Maio 19, 2006

Prefácio a Carta aos Romanos - Lutero

Martinho Lutero, (1483-1546)


Notas de tradução: O texto dentro dos quadros [ ] são apenas explicativos e não faz parte do prefácio de Lutero, assim como os textos em{ } que foram usados pelo tradutor brasileiro. O termo justo, justiça e justificar são sinônimos dos termos reto, retidão e se tornar reto. Ambas as traduções são comuns do alemão "gerecht" e palavras correlatas. Uma situação similar existe na palavra fé, que é sinônimo de crença, do alemão "Glaube". Assim, "Nós somos justificados pela fé" é sinônimo de "Nós somos feitos retos pela crença".


Esta carta é verdadeiramente a mais importante peça do Novo Testamento. É o evangelho mais puro. É de grande valor para um Cristão não somente para memorizar palavra por palavra, mas também para o ocupar com isso diariamente, como se fosse o pão diário da alma. É impossível ler ou meditar nesta carta {tão pouco}. Quanto mais alguém lida com ela, mais preciosa ela se torna e melhor ela saboreia. Por esta razão, eu quero completar meu serviço e, com este prefácio, prover uma introdução para a carta, a medida que Deus me dá habilidade, de maneira que qualquer um possa obter o mais profundo entendimento dela. Até agora ela tem sido escurecida{colocada em trevas} pelas interpretações [notas de explicação e comentários que acompanham o texto] e por muitos um comentário sem uso, mas está dentro dela própria uma luz resplandecente, quase resplandecente o suficiente para iluminar toda a Escritura.
Para começarmos, nós temos que nos tornar familiares com o vocabulário da carta e saber o que São Paulo quer dizer das palavras lei, pecado, graça, fé, justiça, carne, espírito, etc. Do contrário, não há uso em lê-la.
Você não deve entender a palavra lei aqui em padrões humanos, i.e., um regulamento sobre que tipo de ações devem ou não devem serem feitas. Esta é a maneira em que está as leis humanas: você satisfaz os mandamentos da lei com obras, não importa se o seu coração
está ou não de acordo. Deus julga o que está no mais profundo do coração. Por esta razão suas leis também fazem mandamentos no mais profundo do coração e não deixa o coração descansar se satisfazendo com as ações; mais ainda ele pune como hipocrisia e desmente todas as obras feitas longe do mais profundo do coração. Todos os seres humanos são chamados de mentirosos (Sl 116), uma vez que nenhum deles cumprem ou podem cumprir as leis de Deus no mais profundo do coração. Todos acham dentro de si uma aversão ao bem e um desejo ardente pelo mal. Onde não há desejo espontâneo pelo bem, lá o coração não está fundamentado nas leis de Deus. Lá também o pecado está certamente para ser achado assim como a merecida ira de Deus, mesmo que muitas boas obras e uma vida de honra apareça exteriormente ou não.
Por esta razão, no capítulo 2, São Paulo acrescenta que os judeus são todos pecadores e diz que somente os cumpridores da lei são justificados aos olhos de Deus. O que ele está dizendo é que ninguém é um cumpridor da lei pelas obras. Externamente, ele diz para eles, "Vocês ensinam que não se pode cometer adultério, e vocês cometem adultério. Vocês julgam outro de uma certo assunto e se condena vocês próprios naquele mesmo assunto, porque vocês fazem todas as mesmas coisas ao qual vocês julgam ao outro." Isto é como se ele estivesse dizendo, "Externamente você vive propriamente nas obras da lei e julgam aqueles que não estão vivendo a mesma maneira, vocês sabem como ensinar a todo mundo. Você olha o argueiro no olho de outro mas não nota a trave que está no seu próprio."
Externamente, vocês tomam a lei com obras contrariado com o temor de punição ou amor pelo enriquecimento{ganho, lucro, acréscimo, vantagem}. Da mesma maneira, vocês fazem tudo sem o desejo espontâneo e amor à lei; vocês agem por aversão e força. Vocês deveriam viver de outra maneira se a lei não existisse. Segue-se, então, que vocês, no profundo do coração, são inimigos da lei. O que significa para vocês, por isso, em ensinar ao outro que não se deve roubar, quando vocês, no profundo do coração, são ladrões e seria um externamente também, se você tivesse coragem. (Com certeza, do outro lado as obras não permanecem por muito tempo com tanta hipocrisia.) Então assim, vocês ensinam aos outros mas não a vocês mesmos; vocês nem sabem ao certo o que estão ensinando. Vocês nunca estudaram a lei corretamente. Mais adiante, a lei faz aumentar o pecado, como São Paulo diz no capítulo 5. Isso porque a pessoa se torna mais e mais inimigos da lei, quanto mais ela demanda dele o que ele não pode possivelmente fazer.
No capítulo 7, São Paulo diz, "A lei é espiritual." O que isso significa? Se a lei fosse física, então ela poderia ser satisfeita com obras, mas desde que ela é espiritual, ninguém pode satisfaze-la a menos que tudo que ele faça jorre do profundo do coração. Mas ninguém pode dar um coração assim exceto o Espírito de Deus, o qual faz a pessoa ser de acordo com {ou como} a lei, assim que ele atualmente concebe um coração com o sentimento ardente pela lei e a partir daí {de hoje em diante} faz tudo, não através do medo e da força, mas de um coração espontâneo. Tal lei é espiritual desde que ela possa ser amada e cumprida por um tal coração e por um tal espírito espontâneo como esse. Se o Espírito não está no coração, então permanece o pecado, com aversão e inimizade contra a lei, o que nela própria é boa, justa e santa.
Você deve se atualizar da idéia de que uma coisa é fazer as obras da lei e outra coisa é cumpri-la. As obras da lei são todas as coisas que uma pessoa faz ou pode fazer de sua própria disposição espontânea e pelas suas próprias forças em obedecer a lei. Mas porque em fazer tais obras o coração detesta a lei e ainda é forçado a obedecê-la, as obras são uma total perca e são completamente inúteis{sem uso}. Isto é o que São Paulo quer dizer no Capítulo 3 quando diz, "Nenhum ser humano é justificado diante de Deus através das obras da lei." Através disso você pode ver que os mestres [i.e., os teólogos] e sofistas são sedutores quando eles ensinam que você pode se preparar para a graça através das obras. Como pode qualquer pessoa se preparar a si próprio para o bem por meio das obras se ele não faz nenhuma boa obra exceto com aversão e constrangimento em seu coração? Como pode tal obra agradar a Deus, se isso procede de um coração oposto e sem desejo ardente? {desejo ardente-unwilling=sem a força da mente em direcionar seus pensamentos e ações e influenciar a outros neste sentido.}
Mas para cumprir a lei significa fazer suas obras ardentemente, amavelmente e espontaneamente, sem o constrangimento da lei; significa viver bem e de maneira que agrada a Deus, como se não existisse lei nem punição. É o Espírito Santo, entretanto, quem põe tal desejo ardente de amor dentro do coração, como Paulo diz no capítulo 5. Mas o Espírito é somente dado, com, e através da fé em Jesus Cristo, como Paulo diz em sua introdução. Assim, também, a fé somente vem através da palavra de Deus, do Evangelho, o qual prega Cristo: como ele é tanto Filho de Deus e do homem, como ele morreu e ressuscitou para o nosso beneficio. Paulo diz tudo isso nos capítulos 3,4 e 10.
Isso é porque a fé sozinha faz alguém justo e cumpre a lei; fé, isto é que traz o Espírito Santo através do mérito de Cristo. O Espírito, em troca, oferece um coração alegre e espontâneo, como a lei demanda. Então boas obras procede da fé por ela própria. Isto é o que Paulo quer dizer no capítulo 3 quando, após ele ter jogado fora as obras da lei, ele parece querer abolir a lei pela fé. Não, ele diz, nós aprovamos a lei através da fé, i.e. nós a cumprimos através da fé.
Pecado nas Escrituras significa não somente as obras externas do corpo mas também todos aqueles movimentos dentro de nós que se ocupam eles mesmos de nos mover a fazer as obras externas, nominalmente, o profundo do coração com toda sua força. Por esta razão, a palavra realmente deve se referir a uma queda total de uma pessoa no pecado. Nenhuma obra externa do pecado acontece, após tudo isso, a menos que uma pessoa se entregue a si próprio a isso completamente, corpo e alma. Em particular, as Escrituras vêem no profundo do coração, para o fundamento e para a principal fonte de todo o pecado: incredulidade dentro do mais profundo do coração. Desta maneira, assim como a fé sozinha se faz justa e traz o Espírito e o desejo de fazer boas obras externas, então somente a incredulidade que peca e exalta a carne e traz o desejo de fazer obras externas do mal. É o que aconteceu a Adão e Eva no Paraíso (Cf Gênesis 3).
Isso é o porquê de somente a incredulidade é chamada de pecado por Cristo, como ele diz em João 16, "O Espírito punirá o mundo por causa do pecado, porque ele não crê em mim." Mais adiante, antes que as boas e más obras aconteçam, que são os frutos bons e ruins do coração, deve estar presente no coração tanto a fé ou a incredulidade, a fonte, mina e poder chefe de todo pecado. Isso é porque, nas Escrituras, a incredulidade é chamada de a cabeça da serpente e do antigo dragão os quais a semente da mulher, i.e. Cristo, deve esmagar, como foi prometido a Adão(cf. Gênesis 3).Graça e dom que se distinguem nessa graça atualmente denotam a bondade de Deus ou favor que Ele tem para nós e pelo que Ele está disposto a derramar Cristo e o Espírito com seus dons em nós, como se torna claro desde o capítulo 5, onde Paulo diz, "A graça e o dom estão em Cristo, etc." Os dons e o Espírito crescem diariamente dentro de nós, ainda que eles não são completos, desde que os desejos do mal e dos pecados permanecem em nós os quais guerreiam contra o Espírito, como Paulo diz no capítulo 7, e em Gálatas, capítulo 5. E Gênesis, capítulo 3, proclama a inimizade entre a semente da mulher e a semente da serpente. Mas a graça realmente faz muito isso: que nós somos considerados completamente justos diante de Deus. A graça de Deus não está dividida em pigmentos e pedaços, como são os dons, mas a graça nos levanta completamente ao favor de Deus, pelo beneficio de Cristo, nosso intercessor e mediador, de modo que os dons são permitidos a iniciar suas obras em nós.
Desta maneira, você deve estudar o capítulo 7, onde São Paulo retrata ele mesmo como ainda um pecador, enquanto no capítulo 8 ele diz que, por causa dos dons incompletos e por causa do Espírito, não há nada capaz de condenar ao inferno aqueles que estão em Cristo. Porque a nossa carne ainda não foi morta, nós ainda somos pecadores, mas porque nós cremos em Jesus e temos os princípios do Espírito, Deus então nos mostra o seu favor e a sua misericórdia, em que ele nem percebe nem julga tais pecados. Melhor ainda, ele lida conosco de acordo com nossa fé em Cristo até que o pecado é morto.
Fé não é aquela ilusão humana e sonho ao qual algumas pessoas pensam que é. Quando eles ouvem e falam muito sobre a fé e ainda vê que nenhum progresso moral e nenhuma boas obras resultam disso, eles caem no erro e dizem, "Fé não é tudo. Você deve fazer obras se você quer ser virtuoso e ir até o céu." O resultado é que, quando eles ouvem o Evangelho, eles tropeçam e fazem para eles mesmos com suas próprias forças um conceito em seus corações que diz, "Eu creio". Este conceito eles pensam ser fé verdadeira. Mas desde que isto é uma fabricação humana e pensamento e não uma experiência do coração, isto não sucede em nada, e então segue-se nenhum progresso.
Fé é um trabalho de Deus em nós, o qual nos muda e nos traz a nascer um novo proveniente de Deus (Cf João 1). Ela mata o velho Adão, nos faz pessoas completamente diferentes no coração, pensamento, sentido, e todas nossas forças, e traz o Espírito Santo com ela. Como é viva, criativa, uma coisa ativa cheio de poder é a fé! É impossível que a fé em alguma ocasião faça parar o fazer bem. A fé não pergunta se boas obras estão para serem feitas, mas, antes que ela seja questionada, ela as fez. Ela está sempre ativa. Seja quem for que não fizer tais obras está sem fé; ele anda se apalpando e se examinando por fé e boas obras mas não sabe o que a fé ou boas obras são. Mesmo assim, eles tagarelam com muitas palavras sobre fé e boas obras.
A fé é uma confiança viva, inabalável na graça de Deus; ela é então certa, que alguém poderia morrer mil vezes por ela. Este tipo de confiança e conhecimento da graça de Deus faz uma pessoa cheia de alegria, confiante, e alegre com consideração a Deus e todas criaturas. Isto é o que o Espírito Santo faz pela fé. Através da fé uma pessoa fará bem a todos sem uso de força, espontaneamente e alegremente; ele servirá a todos, sofrerá tudo pelo amor e louvor a Deus, o qual lhe tem mostrado tal graça. É tão impossível separar obras da fé como separar as chamas do brilho do fogo. Por esta razão, fique de guarda contra suas próprias falsas idéias e contra os tagareladores que pensam que eles são inteligentes o suficiente para fazer julgamentos sobre a fé e boas obras mas os quais são na realidade os maiores tolos. Peça a Deus para trabalhar a fé em você; do contrário, você permanecerá eternamente sem fé, não importa o que você tente fazer ou fabricar.
Agora justiça é justamente uma fé assim. É chamada de justiça de Deus ou aquela justiça a qual é válida aos olhos de Deus, porque é Deus quem a dá e a considera como justiça pelo benefício de Cristo nosso Mediador. Ela influencia uma pessoa para dar a todos o que ele está devendo. Através da fé uma pessoa se torna sem pecado e obstinado pelos mandamentos de Deus. Assim ele dá a Deus a honra pertencente a Ele e paga a Ele o que está devendo. Ele serve às pessoas espontaneamente com os meios disponíveis a ele. Neste caminho ele paga a todos sua dívida. Nem a natureza, nem o desejo livre, nem as nossas próprias forças podem nos trazer tal justiça, da maneira como ninguém pode dar a si próprio fé, então também ele não pode remover a incredulidade. Como ele pode jogar fora mesmo o menor dos pecados? Por esta razão, tudo que toma lugar fora da fé ou da incredulidade é mentira, hipocrisia e pecado (Romanos 14), não importa como mansamente isto parece prosseguir.
Você não deve entender carne aqui como denotando somente lascívia ou espírito como denotando somente a parte interior do coração. Aqui São Paulo chama a carne(como faz Cristo em João 3) tudo que nasceu da carne, i.e. todo ser humano com corpo e alma, razão e sentidos, desde que tudo dentro dele se inclina para a carne. Isto é o porquê você deveria saber o suficiente para chamar aquela pessoa de "carnal" quem, sem a graça, fabrica, ensina e tagarela sobre assuntos altamente espirituais. Você pode aprender a mesma coisa em Gálatas, capítulo 5, onde São Paulo chama a heresia e obras odiadas da carne. E em Romanos, capítulo 8, ele diz que, através da carne, a lei é enfraquecida. Ele diz isso, não da lascívia, mas de todos pecados, muitos deles da incredulidade, o qual é o mais espiritual dos defeitos.
Do outro lado, você deve saber o suficiente para chamar aquela pessoa "espiritual" que está ocupada com as mais superficiais obras como foi Cristo, quando ele lavou os pés dos discípulos, e Pedro, quando ele conduziu seu barco e pescou. Então assim, uma pessoa é "carne" quando, de uma internamente ou externamente, vive somente para fazer aquelas coisas que são de uso da carne e para a existência temporária. Uma pessoa é "espiritual" quem, internamente ou externamente, vive somente para fazer aquelas coisas que são de uso do espírito e para a vida porvir.
A menos que você entenda estas palavras desta maneira, você nunca entenderá nem esta carta de São Paulo nem o livro das Escrituras. Esteja atento, por isso, contra os professores que usam estas palavras diferentemente, não importa quem ele seja, seja Jerônimo, Agostinho, Ambrose, Origen ou qualquer outro tão grande como grande eles são. Agora vamos voltar para a carta ela mesmo.
A primeira dívida de um pregador do Evangelho é, através de sua revelação da lei e do pecado, considerar e transformar em pecado tudo na vida que não tem o Espírito e a fé em Cristo como sua base. [Aqui e em qualquer lugar no prefácio de Lutero, como você percebe em Romanos, não está claro tanto se o "espírito" tem o significado de "Espírito Santo" ou "homem espiritual", como Lutero tem previamente definido isso.] Desta maneira, ele levará as pessoas para um reconhecimento de sua miserável condição, e assim eles se tornarão humildes e afligir-se por ajuda. Isto é o que São Paulo faz. Ele começa no capítulo 1 por censurar os mais bárbaros pecados e a incredulidade que estão à vista, como eram (e ainda são) os pecados dos pagãos, que vivem sem a graça de Deus. Ele diz que, através do Evangelho, Deus está revelando sua ira lá do céu sobre toda espécie humana por causa da vida sem Deus e injusta que eles vivem. Assim, apesar deles saberem e reconhecerem dia após dia que há um Deus, ainda a natureza humana nela própria, sem a graça, é tão má que ela nem agradece muito menos honra a Deus. Esta natureza cega ela própria e continuamente cai em imoralidade, mesmo indo mais longe cometendo idolatria e outros pecados horríveis e imperfeições. Ela está sem vergonha dela própria e deixa tais coisas sem punição nas outras.
No capítulo 2, São Paulo estende sua rejeição àqueles que aparentam exteriormente piedosos ou quem peca secretamente. Assim eram os judeus, e assim são todos os hipócritas ainda, quem vive vidas virtuosas mas sem obstinação e sem amor; em seus corações eles são inimigos das leis de Deus e gostam de julgar outras pessoas. Este é o caminho da hipocrisia: eles pensam que são puros mas são atualmente cheios de gula, ódio, soberba e toda sorte de sujeira(Cf Mateus 23). Estes são aqueles que desprezam a bondade de Deus e, pela dureza de seus corações, acrescenta ira sobre eles. Assim Paulo explica a lei corretamente onde ele não deixa ninguém permanecer sem pecado mas proclama a ira de Deus a todos que querem viver virtuosamente pela natureza ou pela vontade própria. Ele faz eles se tornarem não melhores do que pecadores públicos; ele diz que eles são duros de coração e sem arrependimento.
No capítulo 3, Paulo atura ambos os públicos e os pecados secretos juntos: um, ele diz, é como o outro, todos são pecadores à vista de Deus. Ao lado, os Judeus tiveram a Palavra de Deus, mesmo que muitos não acreditaram nela. Mas ainda a verdade de Deus e a fé nele não são por essa razão devolvidas sem uso. São Paulo introduz, como de um lado, os dizeres do Salmo 51, em que Deus permanece a verdade em suas palavras. Então ele retorna ao seu tópico e prova baseado na Escritura que eles são todos pecadores e que ninguém se torna justo através das obras da lei mas que Deus entregou a lei somente para que o pecado possa ser percebido.
Após São Paulo ensina o caminho certo para ser virtuoso e ser salvo; ele diz que todos eles são pecadores, incapazes{destituídos} da glória de Deus. Eles devem, entretanto, serem justificados através da fé em Cristo, que tem recebido o mérito para nós através do sangue e tem se tornado a nós uma base de misericórdia [cf. Êxodo 25:17, Levítico 16:14 em diante, e João 2:2] na presença de Deus, o qual nos perdoa todos os nossos pecados anteriores. Fazendo assim, Deus prova que isso é sua justiça sozinha, o qual ele dá através da fé, que nos ajuda, a justiça a qual foi revelada no tempo escolhido através do Evangelho e, previamente a isso, foi testemunhada pela Lei e os Profetas. Por esta razão, a lei é estabelecida pela fé, mas as obras da lei, junto com a glória observada neles, são destruídas pela fé. [Com o termo "espírito", a palavra "lei" parece ser para Lutero, e para São Paulo, dois significados. Algumas vezes parece significar "regulamentos sobre o que deve e o que não deve ser feito", como no terceiro parágrafo deste prefácio; algumas vezes parece significar o "Torah", como na sentença anterior. E algumas vezes parece significar ter ambos os significados, como se segue.]
Nos capítulo 1 até 3, São Paulo tem revelado o pecado pelo que é e tem ensinado o caminho da fé o qual conduz à justiça. Agora, no Capítulo 4 ele lida com algumas objeções e críticas. Ele se dedica primeiro àquele que as pessoas levantam que, ouvindo que a fé faz justiça sem obras, diz, "O quê? Não devemos fazer nenhuma boa obra?" Aqui São Paulo levanta Abraão como exemplo, Ele diz, " O que Abraão realiza com suas boas obras? Foram todas elas boas para nada e sem uso?" Ele conclui que Abraão foi feito justo separadamente de todas suas obras através da fé sozinha(cf. Gênesis 15). Agora se a obra de sua circuncisão não fez nada para fazê-lo justo, uma obra que Deus tinha mandado ele fazer e em conseqüência uma obra de obediência, então certamente nenhuma outra boa obra pode fazer qualquer coisa para fazer uma pessoa justa. Mesmo como a circuncisão de Abraão foi um sinal externo com o qual ele provou sua justiça baseada na fé, assim também todas as boas obras são sinais externos que procedem da fé e são os frutos da fé; eles provam que a pessoa já é internamente justa aos olhos de Deus.
São Paulo verifica seus ensinamentos na fé no capítulo 3 com um exemplo poderoso da Escritura. Ele chama de testemunha Davi, que diz no Salmo 32 que uma pessoa se torna justo sem as obras mas não permanece sem obras uma vez que ele se tornou justo. Então Paulo estende seu exemplo e o aplica contra todas as obras da lei. Ele conclui que os Judeus não podem ser herdeiros de Abraão somente por causa de seus parentesco de sangue com ele e ainda menos por causa das obras da lei. Mais ainda, preferencialmente eles devem herdar a fé de Abraão se eles quiserem ser seus reais herdeiros, desde que isso foi antecedente para a Lei de Moisés e da lei da circuncisão de que Abraão se tornou justo através da fé e foi chamado de um pai dos crentes. São Paulo acrescenta que a lei traz mais ira do que graça, porque ninguém a obedece com amor e obstinação. Mais desgraça que graça vem por causa das obras da lei. Por esta razão a fé sozinha pode obter a graça prometida a Abraão. Exemplos como esses estão escritos para nosso benefício, de que nós também devemos ter fé.
No capítulo 5, São Paulo vem para os frutos e obras da fé, nominalmente, gozo, paz, amor por Deus e por todas as pessoas; em acréscimo: convicção, firmeza, confiança, coragem, e esperança através da aflição e sofrimento. Tudo isso segue onde a fé é genuína, por causa da superabundância da boa vontade em que Deus mostrou em Cristo; ele tem morrido por nós antes que nós pudéssemos pedi-lo por isso, sim, mesmo que nós tenhamos sido seus inimigos. Assim nós temos estabelecido que a fé, sem qualquer boa obra, nos faz justos. Não se segue, entretanto, que não devemos fazer boas obras; preferencialmente significa que obras moralmente honestas não permanece em falta. Sobre tais obras, sobre as "sagradas obras" as pessoas não sabem nada; eles inventam para eles mesmos suas próprias obras no qual não há nem a paz, nem o regozijo, nem convicção, nem amor, nem esperança, nem firmeza, nem qualquer tipo de obras Cristãs genuínas ou fé.
Após São Paulo faz um desvio, uma agradável pequena viagem, e relatos onde ambos o pecado e a justiça, a morte e a vida procede. Ele faz uma oposição destes dois: Adão e Cristo. O que ele quer dizer é que Cristo, um segundo Adão, teve que vir para nos fazer herdeiros de sua justiça através de um novo nascimento na fé, justamente como o velho Adão nos fez herdeiros do pecado através do antigo nascimento da carne.
São Paulo prova, por este raciocínio, que uma pessoa não pode se ajudar a si mesmo pelas suas obras a sair do pecado para a justiça não mais que ele possa se prevenir de seu próprio nascimento físico. São Paulo também prova que a lei divina, o qual deveria ter sido bem adaptada, como se alguma coisa foi, em ajudar as pessoas a obter justiça, não somente não houve ajuda quando ela veio, mas ela ainda aumentou o pecado. A má natureza humana, consequentemente, se torna mais inimigo a isso; quanto mais a lei proíbe ela satisfazer seu próprio desejo, quanto mais ela quer fazer isso. Assim a lei torna a Cristo o todo maior necessário e demanda mais graça para ajudar a natureza humana.
No capítulo 6, São Paulo levanta a obra especial da fé, a luta em que o espírito peleja contra a carne para matar aqueles pecados e desejos que permanecem naquelas pessoas que foram tornadas justas. Ele nos ensina que a fé não nos liberta do pecado a ponto de sermos negligente, preguiçosos e auto confiantes, como se não houvesse mais pecado em nós. O pecado está lá, mas, por causa da fé que luta contra ele, Deus não considera o pecado como merecendo condenação. Por isso nós temos em nosso próprio ser uma vida de obras para nós; nós devemos temer nosso corpo, matar suas luxurias, forçar os seus membros a obedecer ao espírito e não às luxurias. Nós devemos fazer isto de maneira que nós nos conformemos à morte e à ressurreição de Cristo e completar nosso Batismo, o qual significa uma morte para o pecado e uma nova vida de graça. Nosso objetivo é ser completamente limpos do pecado e então ressuscitar corporalmente com Cristo e viver para sempre.
São Paulo diz que nós podemos executar tudo isso porque nós estamos na graça e não na lei. Ele explica que estar "fora da lei" não é o mesmo como não tendo lei e sendo capaz de fazer o que você desejar. Não, estar "debaixo da lei" significa viver sem a graça, rendido pelas obras da lei. Então certamente o pecado reina pelos significados da lei, desde que ninguém é naturalmente bem disposto para a lei. Toda esta condição, entretanto, é o maior dos pecados. Mas a graça torna a lei amável para nós, de maneira que então não há mais pecado, e a lei não é mais contra nós, mas é por nós.
***** Isto é a verdadeira liberdade sobre o pecado e sobre a lei; São Paulo escreve sobre isso no resto do capítulo. Ele diz que isto é uma liberdade apenas para fazer o bem com obstinação e para viver uma vida boa sem a obrigação da lei. Esta liberdade é, por esta razão, uma liberdade espiritual a qual não suspende a lei mas a qual supre o que a lei requer, nominalmente o ardor e amor. Essas coisas silencia a lei de maneira que ela não tem mais nenhuma causa para dirigir as pessoas e fazer requerimentos deles. Isto é como se você devesse alguma coisa a um agiota e não pudesse pagá-lo. Você pode se livrar dele de uma das duas maneiras: ou ele não levaria nada de você e rasgar seu livro de contas, ou um homem piedoso o pagaria para você e daria a você o que você precisasse para saldar a sua dívida. Isso é exatamente como Cristo nos livra da lei. Por esta razão nossa liberdade não é uma liberdade selvagem, carnal que não tem obrigação para fazer nada. Ao contrário, é uma liberdade que faz um grande negócio, sem dúvida de tudo, ainda está livre dos mandamentos da lei e dívidas.
No capítulo 7, São Paulo confirma o precedente por uma analogia desenhada pela vida conjugal. Quando um homem morre, a esposa está livre; aquele está livre e limpo do outro. Não é o caso em que uma mulher não possa ou não deveria casar com outro homem; melhor ainda ela está agora pela primeira vez livre para casar com qualquer outro. Ela não poderia fazer isso antes de ela ser livre de seu primeiro marido. No mesmo caminho, nossa consciência está ligada à lei tão longo quanto nossa condição é aquela do pecado do antigo homem. Mas quando o velho homem é morto pelo espírito, então a consciência é livre, e consciência e lei estão livres uma da outra. Não aquela consciência deveria agora fazer nada; mais ainda, ela deveria agora pela primeira vez verdadeiramente unir-se ao seu segundo marido, Cristo, e dar à luz o fruto da vida.
Mais adiante São Paulo esquematiza mais a natureza do pecado e a lei. É a lei que faz o pecado realmente ativa e poderosamente, porque o homem velho se torna mais e mais inimigo da lei desde que ele não possa pagar o débito requerido pela lei. O pecado é a sua inteira natureza; dele mesmo ele não pode fazer nada. É assim como a lei é a sua morte e tortura. Agora a lei não é má por ela mesma; é a nossa natureza má que não pode tolerar que a boa lei devesse requerer o bem disso. É como o caso de uma pessoa doente, o qual não pode tolerar que você o requeira que ele corra e pule e faça outras coisas que uma pessoa saudável faz.
São Paulo conclui aqui que, se nós entendemos a lei propriamente e a compreendemos da melhor maneira possível, então nós vamos ver que a sua única função é nos lembrar de nossos pecados, para nos matar por nossos pecados, e para nos tornar merecedores da ira eterna. A Consciência aprende e experimenta tudo isso em detalhes quando ela vem face a face com a lei. Segue-se, então, que nós deveríamos ter algo à mais, além e acima da lei, o qual pode fazer uma pessoa virtuosa e fazê-lo por isso ser salvo. Aqueles, entretanto, que não entendem a lei direitamente estão cegos; eles vão para seus caminhos ousadamente e acham que eles estão satisfazendo a lei com obras. Eles não sabem o quanto a lei requer, nominalmente, um coração livre, obstinado e ardente. Esta é a razão pelo que eles não vêem Moisés direitamente diante de seus olhos. [ Em ambos ensinamentos Judeus e Cristãos, Moisés foi comumente tomado para ser o autor do Pentateuco, os primeiros cinco livros da Bíblia. Cf. a imagem envolvida da face de Moisés e o véu encobrindo isso em 2 Coríntios 3.7-18.] Para eles ele é coberto e escondido pelo véu.
Então São Paulo mostra como o espírito e a carne lutam contra si em uma pessoa. Ele se dá como exemplo, de maneira que, nós podemos aprender como matar o pecado dentro de nós. Ele dá tanto ao espírito e a carne o nome de "lei", de maneira que, assim como é na natureza da lei divina para guiar uma pessoa e fazer mandamentos para ele, assim também a carne guia e requer e se enfurece contra o espírito e quer ter seu próprio caminho. Da mesma maneira o espírito guia e requer contra a carne e quer ter seu próprio caminho. Esta guerra permanece dentro de nós ao longo de nossa vida, em uma pessoa mais, em outra menos, dependendo de que o espírito ou a carne seja mais forte. Ainda todo ser humano é tanto: espírito e carne. O ser humano luta com ele mesmo até que ele se torne completamente espiritual.
No capítulo 8, São Paulo conforta os tais lutadores dizendo para eles que esta carne não pode trazer condenação. Ele vai adiante para mostrar o que a natureza da carne e do espírito são. Espírito, ele diz, vem de Cristo, o qual nos deu seu Espírito Santo; o Espírito Santo nos faz espiritual e reprime a carne. O Espírito Santo nos assegura que nós somos filhos de Deus não importa tão furiosamente o pecado possa assolar dentro de nós, tão longo nós seguimos o Espírito e lutamos contra o pecado para matá-lo. Porque nada é tão efetivo em mortificar a carne como a cruz e o sofrimento, Paulo nos conforta em nosso sofrimento. Ele diz que o Espírito, [cf. nota anterior sobre o significado do "espírito".] o amor e todas as criaturas serão levantadas por nós; o Espírito dentro de nós geme e todas as criaturas junto conosco em que nós sejamos libertados da carne e do pecado. Assim nós vemos que estes três capítulos, 6, 7 e 8, todos lidam com a obra da fé, o qual está para matar o velho Adão e para reprimir a carne.
Nos capítulos 9, 10 e 11, São Paulo nos ensina sobre a eterna providência de Deus. É a fonte original que determina quem deveria acreditar ou não, quem poderia ser livre do pecado e quem não pode. Tais assuntos têm sido lançados fora de nossas mãos e são colocadas nas mãos de Deus de maneira que nós devamos nos tornar virtuosos. É absolutamente necessário que isso seja assim, pelo que nós somos tão fracos e incertos de nós mesmos que, se isso dependesse de nós, nenhum ser humano seria salvo. O diabo nos venceria a todos nós. Mas Deus está resoluto; Sua providência não falhará, e ninguém pode impedir sua realização. Por esta razão nós temos esperança contra o pecado.
Mas aqui nós devemos tapar a boca daqueles espíritos sacrílegos e arrogantes que, simples iniciantes como eles são, trazem suas razões para tolerar este assunto e doutorar-se, de suas posições exaltadas, para provar o abismo da providência divina e inutilmente se perturbam sobre tanto se eles são predestinados ou não. Estas pessoas devem com certeza se precipitar para as suas ruínas, desde que eles tanto se desesperarão ou abandonarão a eles mesmos para uma vida de probabilidades.
Você, entretanto, deve seguir o raciocínio desta carta na ordem em que é apresentada. Fixe sua atenção, primeiro que tudo, no Evangelho de Cristo, de maneira que você possa reconhecer seu pecado e a Sua graça. Então lute contra o pecado, como o capítulo 1-8 tem lhe ensinado a fazer. Finalmente, quando você tem chegado, no capítulo 8, debaixo da sombra da cruz e da dor {sofrimento}, eles lhe ensinarão, nos capítulos 9-11, sobre a providência e que conforto ela é. [O contexto aqui e na carta de São Paulo se faz claro que isto é a cruz e a paixão, não somente de Cristo, mas de cada cristão.] Longe do sofrimento, da cruz e das angústias da morte, você não pode lidar com a providência sem dano para você mesmo e sem ira secreta contra Deus. O velho Adão deve estar quase morto antes que você possa suportar este assunto e beber este vinho forte. Por esta razão tenha certeza de que você não beba vinho enquanto você ainda é um bebê de peito. Há uma medida adequada, hora e idade para entendimento de toda doutrina.
No capítulo 12, São Paulo ensina a verdadeira liturgia e faz a todos os cristãos sacerdotes, de maneira que eles possam oferecer, não dinheiro ou gado, como os sacerdotes fazem na Lei, mas os seus próprios corpos, por colocar seus desejos para a morte. Adiante, ele descreve a conduta externa de Cristãos cujas vidas são governadas pelo Espírito; ele fala como eles ensinam, pregam, ordenam, servem, dão, sofrem, amam, vivem e atuam para os amigos, inimigos e a todos. Estas são as obras que um Cristão faz, pelo que, como eu tenho dito, fé não é negligência.
No capítulo 13, São Paulo ensina que devemos honrar e obedecer às autoridades seculares. Ele inclui isto, não porque isso faz as pessoas virtuosas à vista de Deus, mas porque isso realmente garante que o virtuoso tem paz externa e proteção e que o perverso não pode fazer o mal sem temor e numa paz sem perturbação. Por esta razão isto é o dever de uma pessoa virtuosa em honrar a autoridade secular, mesmo que, rigorosamente falando, eles não precisam disso. Finalmente, São Paulo resume tudo em amor e ajunta tudo isso no exemplo de Cristo: o que ele tem feito por nós, nós devemos também fazer e seguí-lo.
No capítulo 14, São Paulo ensina que devemos cuidadosamente guiar aqueles com a consciência fraca e poupá-los. Não devemos usar a liberdade Cristã para prejudicar mas melhor ainda para ajudar o fraco. Onde isso não é feito, segue-se a dissensão e desprezo ao Evangelho, no qual tudo mais depende. É melhor conceder caminho um pouco para os fracos na fé até que eles se tornem mais forte, do que ter o ensinamento do Evangelho perecer completamente. Esta obra é uma obra particularmente necessária de amor especialmente agora quando as pessoas, por comer carne e por outras liberdades, são atrevidos, ousados e estão desnecessariamente abalando suas consciências fracas o qual ainda não tem vindo a conhecer a verdade.
No capítulo 15, São Paulo menciona Cristo como um exemplo para mostrar que nós devemos também ter paciência com o fraco, mesmo com aqueles que falham por pecar publicamente ou por sua moral repugnadas. Nós não devemos expulsá-los mas devemos conduzi-los até que eles se tornem melhores. Esse é o caminho com que Cristo nos tratou e ainda nos trata todos os dias; ele conduz pacientemente com nossas imperfeições, nossa moral enfraquecida e todas as nossas imperfeições, e ele nos ajuda incessantemente. Finalmente Paulo ora pelos Cristãos em Roma; ele os elogia e os recomenda a Deus. Ele aponta seu próprio ministério e a mensagem que ele prega. Ele faz uma discreta súplica por uma contribuição para os pobres em Jerusalém. Amor puro é a base de tudo que ele diz e faz.
O último capítulo consiste em saudações. Mas Paulo também inclui uma saudável advertência contra as doutrinas humanas as quais são pregadas ao lado do Evangelho e que fazem uma grande distribuição de danos. É como se ele tivesse claramente visto que por causa de Roma e através dos romanos viria os livros Canônicos e Decretos distorcidos e destruidores com todos agrupamentos e colônias de leis humanas e mandamentos que está agora afogando todo o mundo e tem rasurado esta carta e todas as Escrituras, também o Espírito e a fé. Nada sobra exceto o ídolo do Ventre {idol Belly, Belly=abdômen}, e São Paulo descreve em palavras aquelas pessoas aqui como servos de seus próprios ventres. Deus nos resgata deles. Amem.
Nós achamos dentro desta carta, então, o ensinamento mais rico possível sobre o que um Cristão deva conhecer: o significado da lei, Evangelho, pecado, punição, graça, fé, justiça, Cristo, Deus, boas obras, amor, esperança e a cruz. Nós aprendemos como nós estamos prontos para atuar a favor de todos, a favor do virtuoso e do pecador, a favor do forte e do fraco, dos amigos e inimigos, e a favor de nós mesmos. Paulo baseia tudo firmemente na Escritura e prova seus pontos com exemplos de sua própria experiência e dos Profetas, de maneira que nada mais possa ser desejado. Por esta razão parece que São Paulo, ao escrever esta carta, quis compor um sumário de tudo do ensinamento Cristão e evangélico o qual poderia também ser uma introdução para todo o Velho Testamento. Sem dúvida, seja quem for que pegue esta carta para possuir de coração a luz e o poder do Velho Testamento. Por esta razão cada e todos os Cristãos devem fazer desta carta o objeto habitual e constante de seu estudo. Deus nos garante sua graça para fazer assim. Amém.


Esta tradução foi feito (em inglês) pelo irmão Andrew Thornton, OSB, para o Programa Humanitário do Colégio Saint Anselm. (c) 1983 pela Comunidade Saint Anselm. Esta tradução pode ser usada livremente com a própria atribuição. Tradução em Português por Márcio Santos de Souza.

Segunda-feira, Maio 15, 2006

Ele nos deixou exemplo.

Leia em sua Bíblia: 1 Pedro 2.18-25


"Pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos". (v. 21)

No momento em que seu coração é confirmado em Cristo e se torna inimigo do pecado, movido por amor, e não por simples medo da dor, o sofrimento de Cristo deve tornar-se um exemplo para toda sua vida que, agora, deve ser encarada de forma diferente. Se dor ou doença o afligirem, considere quão pouco isso é comparado com a coroa de espinhos e os cravos de Cristo. Se tiver de fazer o que não lhe agrada, ou deixar de fazer o que gosta, lembre como o Cristo preso e manietado é levado de cá para lá contra a sua vontade. Se for tentado pelo orgulho, medite em como o seu Senhor é zombado e desprezado na companhia dos malfeitores. E se for acossado por desejos impuros e prazeres carnais, pense cm como a delicada carne de Cristo é açoitada, traspassada e ferida. Se for tentado por ódio e inveja, ou procura vingança, lembre-se de como Cristo orou por você e todos os seus inimigos, como forte clamor e lágrimas, ele que teria tido motivo suficiente para vingança. Se estiver às voltas com tribulação ou outra contrariedade, quer física quer espiritual, anime-se, dizendo: "Ora, por que não haveria de passar por uma pequena aflição, se, de medo e tristeza, o meu Senhor está suando sangue no jardim?" Somente um servo preguiçoso e sem-vergonha ficaria deitado na cama enquanto meu Senhor se debate em meio a agonias mortais.

Domingo, Maio 14, 2006

Obediência.

Leia em sua Bíblia: Hebreus 13.18-21

"Deus vos aperfeiçoou em todo bem, para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele, por Jesus Cristo, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém. (v. 21)

Se você pudesse converter o mundo inteiro, ressuscitar mortos, leva a si e a todos os demais homens ao céu e operar toda sorte de milagres, você não deveria quere nada disso sem ter colocado à vontade de Deus em primeiro plano e submetido essa sua vontade à vontade dele, reduzindo-a a nada e dizendo: "Querido Deus, isso e mais isso me parece bom; se for de tua vontade, que se faça; se não for, o assunto está encerrado".Na vida de seus santos, Deus, freqüentemente, impede que se faça essa boa vontade, para impedir que, através da sua bela aparência, se instale a falsa, traiçoeira e má boa vontade e para que aprendamos que nossa vontade, por melhor que seja, é incomparavelmente menos importante do que a vontade de Deus. Razão porque uma boa vontade menos importante deve simplesmente dar lugar ou, em submissão, desaparecer diante da incomparável boa vontade de Deus. Há, ainda, outro motivo por que nossa boa vontade deve ser impedida: para que seja aperfeiçoada. Pois Deus, certamente, só impede que se faça uma boa vontade para que se torne mais perfeita. Agora, ela se torna mais perfeita no momento em que se submete e conforma à vontade divina (que é, também, a que impede que nossa vontade se faça). E isso dura até que a pessoa fique bem entregue, livre, sem vontade própria, e não se importe com outra coisa senão esperar que seja feita a vontade de Deus. Veja, isso se chama verdadeira obediência.

Sábado, Maio 13, 2006

A Verdade Acima da Unidade.

(Leia 2 Coríntios 13.5-10)
"Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade". (v. 8)

Esse tesouro é tão valioso que nenhum coração humano é capaz de compreendê-lo (razão por que também requer uma luta maior e mais intensa), e não se deve menosprezá-lo, como o mundo e algumas pessoas insensatas fazem. Dizem assim: A gente não deve brigar tanto por causa de um artigo de fé, etc., e, por causa disso, dividir a cristandade, pecando contra o amor. Ao contrário, dizem eles mesmos que a gente erra num pequeno ponto, mas concorde no restante, bem que se pode amolecer e fechar um olho, visando preservar a união ou unidade cristã e fraterna. Não, meu caro amigo, não me venha com conselhos sobre paz e unidade que resultem em perda da palavra de Deus. Pois, com isso, perder-se-ia também a vida eterna e tudo mais. Aqui não se pode amolecer e rejeitar as coisas a bem de você ou a de qualquer outra pessoa. Pelo contrário, todos, amigos ou inimigos, devem dar lugar à palavra. Pois a palavra não nos foi dada para promover paz e unidade exterior ou terrena, mas para conduzir à vida eterna. A unidade ou comunhão cristã deve ser fruto das palavra ou da doutrina. Onde houver acordo e unidade na palavra ou na doutrina, o resto virá automaticamente. Se não houver concórdia na palavra ou na doutrina, nenhuma unidade será duradoura. Por isso, não me venha com essa história de amor ou amizade quando se pretende passar por cima da palavra e da fé. Pois está escrito que a palavra, e não o amor, nos traz a vida eterna, a graça de Deus e todos os tesouros do céu.

Sexta-feira, Maio 12, 2006

Defender a Honra de Deus - Lutero.

"Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura, não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio? Replicou Jesus: Eu não tenho demônio, pelo contrário, honro a meu Pai, e vós me desonrais". VV. 48s. - Leia Jo 8.48-55)

Qual é a atitude de Cristo? Permite que desonrem sua pessoa, fica calado e tudo suporta; mas defende a doutrina. Pois a doutrina não é nossa, e sim, de Deus, que não deve sofrer nada. Aqui, a paciência chega ao fim. Devo defender a doutrina com todas as minhas forças, e suportar tudo que fazem contra mim, para que a honra e a palavra de Deus nada sofram. Pois, se eu pereço, pouco se perde; mas, se permito que a palavra de Deus pereça e deixa de ser anunciada, estou causando dano a Deus e a todo o mundo.É dessa forma, pois, que devemos agir. Se ameaçarem nossa vida, devemos suportá-lo, pagando o ódio como amor e o mal com o bem.Mas, no momento em que atacam a doutrina, atacam também a honra de Deus. então não há mais lugar para o amor e a paciência, e a gente não pode ficar calado, mas deve dizer com Cristo: Eu honro a meu Pai e, em vista disso, vocês me desonram; mas, pouco me importa se vocês me desonram, pois não procuro minha própria honra. Mas, cuidado! Existe alguém que a procura e julga. O Pai vai exigi-la de vocês e vai julgá-los, nada deixando sem castigo. Ele busca não somente sua própria honra, mas também a minha, pois eu busco a sua honra, como ele diz: Aqueles que me honram serão honrados. E este é o nosso consolo: podemos ficar alegres mesmo que todo o mundo nos cubra de vergonha e desonra, pois temos certeza de que Deus busca nossa honra e, por causa dela, vai julgar, vingar e castigar. Quisera pudéssemos crer nisso e esperar pacientemente, pois ele, certamente, virá.

Duas Espécies de Justiça - Lutero

“Sermo de duplici iustitia, 1519”

O sermão sobre as duas espécies de justiça é uma amostra das tentativas de Lutero no sentido de comunicar ao povo as verdades redescobertas nas obras do apóstolo Paulo e Agostinho.

“tenham em vocês o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus”. (Filipenses 2.5s).
A justiça dos cristãos é de duas espécies, como é de duas espécies o pecado dos homens.A primeira espécie provém de outra pessoa e é concedida de fora. É a justiça mediante a qual Cristo é justo e justifica pela fé, como diz 1 Coríntios 1.30. "...o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção". Ele próprio afirma, em João 11.25: "Eu sou a ressurreição e a vida: quem crê em mim, não morrerá eternamente." E novamente, João 14,6: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" Esta justiça, portanto, é concedida aos homens no batismo, e, em toda época de verdadeira penitência, resulta que o ser humano pode gloriar se, com toda confiança, gloriar-se em Cristo e dizer.: É meu tudo o que e de Cristo: sua vitória seus feitos, o que disse e sofreu, sua morte - corno se eu próprio tivesse vencido, feito, dito, sofrido tais coisas e tivesse sido morto. Pertence ao noivo tudo o que a noiva possui, e à noiva pertence tudo o que o noivo possui (pois todas as coisas lhes são comuns visto serem em comum, uma vez que são uma só carne). Assim também Cristo e a igreja constituem um só espírito. Foi assim que o bendito Deus e Pai das misericórdias, conforme São Pedro nos concedeu coisas excelsas e preciosas em Cristo. Da mesma forma, na Segunda Epístola aos Coríntios: “Bendito seja o Deus e Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo pai das misericórdias e Deus de toda consolação” (1.3) “que tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”. (Efésios 1.3)Esta bênção indizível foi prometida outrora a Abraão em Gênesis 12.3: "Na tua semente (isto é, em Cristo) serão abençoadas todas as tribos da terra." Em Isaías 9.6: "Um menino nos nasceu, um filho se nos deu." "A nós" diz ele, porque é a nós que pertence todo ele, com todos os seus bens, se nele cremos, como diz aos Romanos no capítulo 8.32: "Não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou; porventura, não nos dará com ele todas as coisas?" São nossas, portanto, todas as coisas que Cristo tem, concedidas que foram gratuitamente a nós homens indignos, por pura misericórdia, quando, na verdade, teríamos merecido ira e condenação, bem como o inferno, Por essa razão também o próprio Cristo, que afirmou ter vindo para cumprir essa vontade santíssima do Pai, tornou-se obediente a ele, e fez em nosso benefício e quis que fosse nosso tudo o que fez, pois declarava: “Eu estou no meio de vocês como alguém que serve” (Lucas 22.27), e novamente: “Este é meu corpo, que é dado por vós” (Lucas 22. 19); e Isaías diz no capítulo 43.24: “Fizeste-me servir em teus pecados, e me deste trabalho em tuas iniqüidades”.Pela fé em Cristo, portanto, a justiça de Cristo se torna nossa justiça, e, com ela, é nosso tudo que é de Cristo, sim, ele próprio torna-se nosso, Por essa razão, o apóstolo a chama "justiça de Deus", na Epístola aos Romanos 1.17: "A justiça de Deus é revelada no evangelho, como está escrito: o justo vive da fé!" E mais: Refere-se à fé como sendo tal Justiça. Finalmente semelhante fé também é chamada de justiça de Deus, no capítulo terceiro da mesma carta: "Concluímos que o homem é justificado pela fé." (Romanos 3.28). Esta é a justiça infinita e que absorve todos os pecados num instante, pois é impossível que haja pecado em Cristo; antes, quem crê em Cristo, está apegado a ele, e é uma coisa só com Cristo, compartilhando com ele a mesma justiça. Por isso é impossível que nele continue havendo pecado. E essa justiça é a primeira, é o fundamento, causa, origem de toda justiça própria ou de conduta. Porque de fato a mesma é concedida em lugar da justiça original, perdida em Adão, e realiza aquilo, sim, muito mais do que aquela justiça original teria conseguido realizar.Assim se compreende aquilo no Salmo 31.1: "Em ti, Senhor, me refugio; não seja eu jamais envergonhado: livra-me por tua justiça"; ele não diz “por minha”, mas “por tua”, isto é, pela justiça de Cristo, meu Deus, que foi feita nossa pela fé, pela graça, pela misericórdia de Deus. E isso é chamado, em muitos lugares no saltério, de obra do Senhor, confissão, força de Deus, misericórdia, verdade, justiça. Tudo isso são designações para a fé em Cristo, sim, para a justiça que está em Cristo. Por essa razão o apóstolo ousa dizer em Gálatas 2.20: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”, e em Efésios 3.17: “Que ele vos conceda que Cristo habite pela fé em vossos corações”.Essa justiça alheia, portanto, infundida em nós sem atos nossos, somente pela graça, ou seja, quando o Pai nos leva interiormente a Cristo, essa justiça alheia é oposta ao pecado original, o qual, de forma semelhante, contraímos de fora por nascença e através de nossa concepção, sem atos nossos. E assim Cristo expulsa o velho Adão dia a dia, mais e mais, e nessa medida crescem aquela fé e conhecimento de Cristo; pois ela não é infundida toda de uma vez, mas começa e progride e é levada finalmente à perfeição com a morte.A segunda justiça é nossa e própria; não porque nós a operamos sozinhos, mas porque cooperamos com aquela primeira e alheia. Esta é agora aquela boa vivência de boas obras: em primeiro lugar na mortificação da carne e na crucificação da concupiscência em si mesmo, conforme Gálatas 5.24: "Mas os que são de Cristo, crucificaram sua carne, com as paixões e concupiscências." Em segundo lugar também no amor ao próximo; em terceiro, também na humildade e no temor a Deus, do que está repleto o apóstolo e toda a Escritura. Mas ele resume tudo em Tito 2.12 dizendo: “Sobriamente” (isto é, em relação a si mesmo, pela crucificação da carne), “justamente” (ou seja, em relação ao próximo) “e piedosamente” (em relação a Deus) “vivamos neste século”.Essa segunda justiça é obra da justiça anterior, fruto e conseqüência da mesma, conforme Gálatas 5.22: "Mas o fruto do Espírito (isto é, do homem espiritual, que ele se torna através da fé em Cristo) é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade", etc. Pois o homem espiritual é chamado de "espírito", nessa passagem, porque é evidente que aqueles frutos são obras dos homens. E João 3.6: "0 que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito." Essa justiça leva à perfeição a primeira, porque sempre atua no sentido de arruinar o velho Adão e destruir o corpo do pecado: por isso ela se odeia a si mesma e ama o próximo, não procura o que é seu, mas o que é do outro, e nisto consiste toda a sua atuação. Pois ao odiar a si mesma e não procurar o que é seu, ela efetua em si a crucificação da carne; porém, ao procurar o que é do outro, ela opera a caridade; e, assim, com ambas as coisas ela faz a vontade de Deus, vivendo "sobriamente" em relação a si mesma, "justamente" em relação ao próximo, e "piedosamente" em relação a Deus.E nisso ela segue o exemplo de Cristo e se identifica com a sua imagem. Pois isto mesmo também Cristo exige: Assim como ele próprio tudo fez em nosso favor, não procurando o que é seu, mas apenas o que é nosso, também nisso obedientíssimo a Deus Pai, assim ele quer que também nós mostremos este exemplo frente aos nossos semelhantes.Essa justiça é contraposta ao nosso próprio pecado real, conforme Romanos 6.19: "Assim como ofereceram seus membros para a escravidão da impureza, e da maldade para a maldade, assim ofereçam agora seus membros para servirem a justiça para a santificação." (Romanos 6.19). Portanto se levanta pela primeira justiça a voz do noivo que diz à alma: "Eu sou seu", e pela segunda, a voz da noiva, que diz: "Eu sou sua"; está feito então o matrimônio firme, perfeito e consumado, como consta no Cântico dos Cânticos: Meu amado é para mim, e eu para ele, o que quer dizer, "meu amado é meu, e eu sou dele". (Cantares 2.16). Então a alma não procura mais ser justa perante si mesma, mas tem como sua justiça a Cristo; daí ela procura apenas o bem dos outros. Por isso o senhor da sinagoga ameaça através do profeta tirar dela a voz da alegria, a voz do no noivo e a voz da esposa Jeremias 7.34).Isto é o que diz o tema anteposto: “Tenham em vocês o mesmo sentimento etc” (Filipenses 2.5); isto é, que tenham a mesma atitude e sentimento um para com o outro como vêem que Cristo os teve em relação a vocês. Como isto? "Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, etc." A forma de Deus não é chamada aqui de essência de Deus, porque desta Cristo nunca se despojou; de igual modo também a "forma de servo" não pode ser chamada de essência humana; e sim, "forma de Deus" é sabedoria, poder, justiça, bondade, e ainda liberdade, assim como Cristo foi um homem livre, forte, sábio, sujeito a ninguém, nem ao vício nem ao pecado, como são todos os seres humanos (pois ele era superior naquelas formas que cabem principalmente a Deus). Mesmo assim ele não se ensoberbeceu desta qualidade, não agradou a si mesmo, tampouco se enfastiou com os outros nem desdenhou os que eram servos e estavam sujeitos a diversos males, como aquele fariseu que disse: "Graças te dou, que não sou como as outras pessoas" (Lucas 18.11), que se alegrava com o fato de os outros serem miseráveis, não querendo de forma alguma que eles fossem semelhantes a ele. Essa é a usurpação que a pessoa se arroga, sim, com a qual ela guarda o que tem e não o atribui exclusivamente a Deus (a quem pertencem esta coisas), nem serve aos outros com as mesmas, para fazer-se igual aos outros. Assim querem ser como Deus, suficientes em si mesmos, autocomplacentes, gloriando-se a si mesmos, sem dever nada a ninguém, etc. Cristo, porém, não teve esta atitude, não é assim que ele foi "sábio", e sim, aquela forma divina ele a atribuiu ao Pai, e se esvaziou a si mesmo, não querendo utilizar aqueles títulos frente a nós, não querendo ser diferente de nós; sim, antes ele se tornou para nós como um de nós e aceitou a forma de servo (isto é, sujeitou-se a todos os males). Mesmo sendo livre, como também diz o apóstolo (1 Coríntios 9.19), se fez servo de todos, não agindo de outra forma senão como se fossem seus todos esses males que eram nossos. Por isso ele tomou sobre si nossos pecados e castigos e agiu de forma tal que os vencesse como que para si mesmo, sendo que na realidade ele os venceu para nós. Com respeito a nós, ele poderia ser nosso Deus e Senhor. Ainda assim não o quis, mas preferiu tornar-se nosso servo, como diz Romanos 15.11,3: "Não devemos agradar a nós mesmos", pois também Cristo não se agradou a si mesmo. Mas, como está escrito, "as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim" (Salmo 69.9), que expressa o mesmo que a sentença acima.Daí sucede que essa autoridade que muitos entendem como afirmação, deve ser compreendida de forma negativa, ou seja: Cristo não se julgou igual a Deus, isso é, não quis ser igual, como acontece com aqueles que o tomam para si, que dizem a Deus: "Se não deres (como diz Bernardo) a mim a tua glória, eu mesmo dela me apossarei" A frase "não julgou como usurpação o ser igual a Deus" não deve ser entendida como afirmativa no sentido de que ele não julgou ser igual a Deus; isto é: não teria julgado usurpação ser igual a Deus: porque esta sentença não faz sentido adequado, pois fala de Cristo como pessoa humana. O que o apóstolo quer é que cada cristão se torne servo do outro, a exemplo de Cristo. E se alguém possui alguma sabedoria ou justiça ou poder, através do que ele poderia superar os outros e gloriar-se como se fosse deiforme, esse não deve tomar isto como seu, mas atribuí-lo a Deus. De modo geral, deve despir-se dessas qualidades e comportar-se como um daqueles que não as têm, para que cada um, esquecido de si mesmo e despojado dos dons de Deus, aja com seu próximo como se fosse sua própria a fraqueza, o pecado e a ignorância do próximo; não se glorie, nem se ufane, nem desdenhe, nem triunfe contra aquele, como se fosse seu Deus e igual a Deus; uma vez que se deve deixar isso somente para Deus, semelhante soberba leva à "usurpação". Assim, portanto, é compreendida a "forma de servo" e se cumpre aquilo que o apóstolo escreve em Gálatas 5.13: "Sejam servos uns dos outros, pelo amor." E em Romanos 12.4s e 1 Coríntios 12.12ss ele ensina, pela semelhança dos membros do corpo, como os membros fortes, honestos e sãos não se ensoberbecem frente aos fracos, desonestos e doentes, como se dominassem e fossem seus deuses. Ao contrário, eles antes servem àqueles, esquecendo-se de sua honestidade, saúde e força. Pois nenhum membro do corpo se serve a si mesmo nem procura o que é seu, mas o que é do outro, e isso tanto mais, quanto mais fraco, doente e desonesto for aquele. E para falar com as suas palavras, são "solícitos os membros entre si, para que não haja divisão no corpo". Com isso se torna claro agora como se deve agir com o próximo em todas as coisas.Porque, se não quisermos nos despir voluntariamente dessas "formas de Deus" e vestir as "formas de servo", seremos forçados e despidos contra a vontade. Quanto a isso observe em Lucas 7.36ss a história em que Simão, o leproso, assentado em "forma de Deus" e em justiça (própria,) julgava arrogantemente e olhava com desprezo para Maria Madalena, na qual ele via a "forma de servo". Mas veja: Cristo logo o despiu da forma da justiça e lhe pôs a forma do pecado, dizendo: "Você não me deu o beijo, não ungiu minha cabeça." Repare quão grande eram os pecados que ele não enxergava! Tampouco se julgava ele deformado por uma forma repugnante. Não há qualquer lembrança de boas obras suas. Cristo ignora a "forma de Deus" na qual aquele se agradava a si mesmo e se ensoberbecia, nada menciona de que tivesse sido por ele convidado, recebido à mesa ou honrado: Simão, o leproso, nada mais é do que um pecador, que tão justo se parecia a si mesmo. Tirou-se-lhe a glória da "forma de Deus", deixando-o envergonhado na forma de servo, querendo ou não. Em contraposição, a Maria ele honra com a "forma de Deus", sobrepõe-lhe a sua e a eleva acima de Simão, dizendo: Esta ungiu meus pés, beijou-os, regou-os com lágrimas e os enxugou com os cabelos. Veja quanto mérito, que nem ela mesma nem Simão enxergavam! Não há qualquer lembrança dos seus deméritos, Cristo ignora a "forma de servidão" nela, a qual ele engrandeceu com a forma de senhorio, e Maria nada menos é do que justa, exaltada na glória da forma de Deus, etc.Assim ele fará com todos nós, sempre que nos inflarmos por causa da (nossa) justiça, sabedoria ou força, e nos irritarmos contra injustos, tolos e os mais fracos que nos: pois então (esta é a maior perversão) a justiça opera contra a justiça, a sabedoria contra a sabedoria, a força contra a força. Porque você é forte não para fazer os fracos ainda mais fracos, pela opressão, mas para que os torne fortes, exaltando e defendendo-os. E é sábio não para rir dos tolos e assim fazê-los ainda mais tolos, mas para aceitar, como quer que aconteça em relação a você mesmo, e para os ensinar. Assim você é justo, para que justifique e desculpe o injusto, não para condená-lo apenas, falar mal dele, julgar e castigá-lo. Pois este é o exemplo de Cristo para nós, conforme ele diz: “O Filho do homem não veio para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo através dele” (João 3.17); e novamente em Lucas 9.55ss: “Não sabem de que espírito são? O Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. Mas a natureza resiste violentamente, porque ela muito se deleita com a vingança e a glória de sua justiça e com a vergonha da injustiça do seu próximo. Por isso promove apenas sua própria causa e se alegra de estar ela melhor que a do próximo, acossando, porém, a causa do próximo e desejando que ela vá mal. Essa perversão é toda a injustiça, contrária ao amor que não procura o que é seu, mas o que é do outro. Portanto deve-se lamentar que a causa do próximo não esteja melhor que a própria, e desejar que ela vá melhor que a própria, sem que a alegria seja menor que sobre a própria causa: pois essa é a lei e os profetas.Vocês dizem: “Acaso não é permitido castigar os maus? Não convém punir os pecados? Quem não tem a obrigação de defender a justiça? Pois isso seria dar oportunidade à transgressão”.Respondo eu: “Aqui não se pode dar uma resposta simples: é preciso fazer uma distinção entre as pessoas: ou são homens públicos ou pessoas particulares”.Aos homens públicos, isto é, os que estão a serviço de Deus ou ocupam posição de direção, não se referem essas coisas que foram ditas: pois a esses Cabe punir e julgar os maus ex officio e por necessidade, vingar e defender os oprimidos. Por que não são eles mesmos, mas quem o faz é Deus, cujos servos eles são nisto, como o apóstolo expõe largamente em Romanos 13.4, dizendo: "Não é sem motivo que (a autoridade) traz a espada", etc. Isto, entretanto, deve ser entendido com referência aos assuntos dos outros, e não dos próprios. Pois ninguém está encarregado por Deus por causa de si mesmo ou de seu próprio interesse, mas por causa dos outros. Se, porém, alguém tem uma causa própria, deve requerer outro representante de Deus que não ele mesmo; porque ele já não é mais juiz, mas litigante. Mas sobre esses fatos uns dizem uma coisa, outros outra; o assunto é amplo demais para ser discutido agora.Pessoas privadas e em causa própria há três tipos: os primeiros são os que querem vingança e procuram julgamento junto aos representantes de Deus, e desses há agora um grande número. Isto o apóstolo o tolera, mas não aprova, conforme 1 Coríntios 6.12: "Tudo me é permitido, mas nem tudo convém;" sim, ele até diz ali mesmo: "Em princípio já é uma falha entre vocês o fato de terem demandas," (1 Coríntios 6.7). Mas ainda assim, por causa do mal maior, é tolerado este mal menor, para que não se vinguem a si mesmos e um não use da violência contra o outro, retribuindo o mal com o mal ou reclamando seus bens. Contudo esses não entrarão no reino dos céus, a não ser que mudem para melhor e deixem do que é permitido para seguir o que convém. Porque precisa ser extinta essa atitude de procurar a vantagem própria.Os outros são aqueles que não procuram vingança, os que estão dispostos inclusive (segundo o evangelho) a dar ao que lhes tira o manto, também a túnica, sem resistir a maldade alguma. Estes são filhos de Deus, irmãos de Cristo, herdeiros dos bens futuros. Por isso eles são chamados nas Escrituras de órfãos, pupilos, viúvas e pobres, de quem Deus quer ser chamado de Pai e Juiz (Salmo 68.5); porque não se vingam a si mesmos. Sim, se os regentes querem vingar em seu favor, eles ou não o desejam e procuram, ou apenas o permitem; ou, se forem de grande perfeição, o proíbem e impedem, dispostos antes a perder também outras coisas por causa disso.Se você disser: "Esses são pouquíssimos, e quem pode ficar neste mundo, agindo assim?", respondo: Não é nenhuma novidade hoje que poucos são salvos, e que é estreita a porta que leva para a vida, e que poucos a encontram. E se ninguém o fizer, como ficará a Escritura que declara serem os pobres, órfãos e pupilos e povo de Cristo? Por isso esses se afligem mais do pecado dos que os ofendem do que por causa do próprio dano e ofensa. E preferem agir de modo a chamar aqueles de volta do pecado a vingar as injúrias. Por essa razão despem-se das formas de sua justiça e vestem as formas daqueles, orando pelos que os perseguem, falando bem dos que falam mal, fazendo o bem aos que lhes fazem injustiça, estando prontos a sofrer e satisfazer os castigos em favor dos seus próprios inimigos, (Mateus 5.44) para que sejam salvos. Esse é o evangelho e exemplo de Cristo.Os terceiros são aqueles que, na atitude, são corno os segundos, já mencionados, mas no efeito são diferentes, São os que não reclamam de volta o que é seu nem desejam punição por procurarem o que é seu; eles, isto sim, através dessa punição e restituição do que é seu procuram a melhora daquele que roubou ou ofendeu e que, segundo vêem, não pode ser consertado sem punição. Esses são chamados de zelosos e recebem louvor nas Escrituras. Mas isso não deve tentar senão quem é perfeito e muitíssimo exercitado no segundo grau já falado, para que ele não tome a fúria por zelo e não venha a ser convencido de que aquilo que ele crê fazer por amor à justiça, ele o tenha feito antes por indignação e impaciência. Porque a ira muito se assemelha ao zelo, e a impaciência ao amor da justiça, de sorte que não podem ser satisfatoriamente distinguidos, senão por pessoas muitíssimo espirituais. Ato desta espécie fez Cristo (conforme está dito em Jo 2.14ss), quando, tendo feito açoites, expulsou vendedores e compradores do templo, bem como Paulo, quando disse: "Com a vara irei até vocês", etc. (1 Coríntios 4.21).

Trad. Walter O. Schlupp